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domingo, 1 de maio de 2011

A CONQUISTA E O PROCESSO DE COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA

Roberto Albuquerque dos Santos

           Quando os Espanhóis chegaram à região onde hoje se localiza o México, se depararam com um Império muito poderoso tanto militar, quanto culturalmente. Eram os Astecas.
Inicialmente, os contatos se deram sem grandes conflitos e só após a morte do governante Asteca, Montezuma, em 1520, é que se iniciou uma guerra aberta entre Espanha e México. Hernán Cortez, o responsável pela empresa da conquista da região para a Espanha, já havia conseguido a aliança de quase todas as etnias que compunham o Império e que, dessa forma, eram exploradas pelos Astecas. Sendo assim, em meados de 1521, Tenochtitlán foi retomada pelos Espanhóis que haviam sido expulsos e, em 1525, totalmente destruída para que por sobre seus escombros fosse construída a capital do Vice-Reino da Nova Espanha: a Cidade do México.

Depois da conquista do Império Asteca (também chamado, como já foi referido, de México), os Espanhóis rumaram para o sul e, só depois de muita luta, no final do século XVI, conseguiram conquistar a península do Yucatán, região habitada pelos Maias, que não estavam subordinados aos Astecas e que também não estavam unidos em nenhum tipo de país ou Império, sendo assim, tornaram sua conquista um empreendimento bem mais trabalhoso.
A conquista da América mudou as concepções existentes até então de que os autóctones ameríndios seriam algo abaixo dos seres humanos, na medida em que não eram “civilizados”. A conquista de um Império tão elaborado quanto o Asteca (cuja organização interna era mais bem organizada do que a organização interna de muitos Reinos europeus da época) provou ao mundo e, em especial à Igreja, que os povos da América eram sim humanos. Essa comprovação se deu através da vitória dos argumentos do Frei Bartolomé de Las Casas, que acreditava no fato dos ameríndios serem criaturas passíveis de salvação e que, portanto, deveriam ser catequizados na fé Cristã. Porém havia quem declarasse que os índios eram macacos belicosos e que, por isso, precisavam ser destruídos.
Com a descoberta de que povos americanos conheciam a escrita, a Igreja mais do que depressa organizou autos de fé nos quais foram queimados a maior parte dos livros e pergaminhos Maias e Astecas, além da totalidade dos livros de outras culturas menores. Essa prática visava destruir mais rapidamente a cultura e, em especial, a religião daqueles povos para que o trabalho dos sacerdotes Católicos se desse mais facilmente. A destruição de tais obras sob a alegação de que se tratava de símbolos e rituais demoníacos; alegação essa, baseada no fato de que boa parte desses povos praticava o sacrifício humano com alguma regularidade. Tal atitude dificultou imensamente o trabalho dos arqueólogos e historiadores de hoje que buscam entender como se dava a vida naquelas regiões, além disso, fez com que fossem perdidos para sempre muitos dados valiosíssimos sobre tais culturas.
Mas o que se buscará nesse trabalho procurar  entender  como  se articulou  o  domínio e a colonização  da   América   pelos   espanhóis   com  o processo de acumulação de capital nas metrópoles européias.
A montagem de uma complexa máquina burocrática nas colônias tinha o evidente interesse de fiscalização, para assegurar a dominação das colônias. Através do monopólio, ou “exclusivo”, a Coroa garantia que os lucros gerados pela colônia permaneceriam na metrópole. Além dos monopólios, os impostos, muitos e variados, garantiram plenamente essa acumulação. Sem dúvida o trabalho realizado nas terras da América tinha como principal objetivo criar um fluxo de recursos a ser acumulado na capital da coroa.
Elementos que proporcionaram a vitória dos espanhóis sobre o império Asteca
A conquista da América é um dos mais importantes fatores que compõe a História Medieval. Fugindo do panorama europeu (embora os mesmo se encontrem no recém descoberto continente), o imaginário se eleva as paisagens de matas, montanhas e cerrados com selvas infestadas de ameríndios que desconhecem a cultura do invasor, mas que tem encravado consigo sua cultura, religião etc.
É inevitável o confronto desses dois mundos desconhecido um ao outro: invasor versos habitante local. Os invasores são em menor número, os habitantes nativos infestam o continente: Por que os invasores conquistam se são inferiores em número?  A este fato Todorov formula um questionamento: “Por que esta vitória fulgurante, se os habitantes da América são tão superiores em número a seus adversários, e lutam em seu próprio solo?”.[1] As respostas são várias, e entre tantas é necessário destacar o enorme poder de fogo das armas européias, às quais os índios só podiam contrapor com arcos, flechas, lanças e tacapes. Também é considerável o fato que os índios não conheciam o cavalo, como diz Elliot: “O cavalo deu aos espanhóis uma vantagem importante, em termos tanto da surpresa inicial quanto da mobilidade (...) Os invasores também tiraram enorme proveito do fato de pertencerem a uma sociedade de incontestável superioridade tecnológica sobre as sociedades indígenas” [2]. Importa ressaltar também que os mitos religiosos de alguns povos contribuíram, na medida em que previam a volta de “deuses” que foram identificados com os espanhóis: “Quando viram os espanhóis pela primeira vez, os índios (...) chamaram os espanhóis de Tucupacha, que significa deuses, e Teparacha, (...) também empregado para designar deuses [...]” [3]. Assim, um misto de misticismo e fatalismo colaborou para que os indígenas aceitassem a derrota ou talvez não resistissem tanto aos espanhóis.

O mesmo autor não só destaca as vantagens bélicas dos espanhóis, mas também destaca as vantagens dos índios. Chama ele a atenção para o fato de que os índios “(...) possuíam a grande vantagem de operar em terreno conhecido, ao qual os espanhóis ainda tinham de aclimatar-se” [4]. Além do mais, contava também a favor dos silvícolas, os efeitos do calor e as diversas reações da alimentação e bebidas as quais os espanhóis não estavam acostumados e as pesadas armaduras que os mesmos usavam. Outrossim, havia a fragilidade da pólvora junto à água e a eficácia dos fuzis ante as flechas dos nativos. O texto alude que “a superioridade técnica não foi tão bem definida e irrestrita quanto poderia parecer à primeira vista (...) os invasores estavam mal equipados (...) estavam armados com nada mais sofisticado do que espadas, piques e facas (...) treze mosquetes, junto com dez canhões de bronze e quatro canhões leves (...) com enorme dificuldade puderam esse canhões ser puxados pelas florestas e montanhas [...]” [5] .
Obstante as adversidades encontradas pelos espanhóis, o autor do texto ressalta que “Quando um mundo de ferro e pólvora entra em violenta colisão com um mundo de pedra, era de esperar que a derrota deste último fosse inevitável” [6]. Portanto, valendo-se da “alta tecnologia” bélica européia e até de fatores pertencentes às crendices e superstições dos índios, os espanhóis derrotam o povo nativo estabelecendo, assim, seu domínio sobre a terra descoberta.
Quanto a este ponto, Todorov busca “encontrar uma resposta na abundante literatura que esta fase da conquista, já na época, suscitou: os relatórios do próprio Cortez, as crônicas espanholas (...) e, finalmente os relatórios indígenas (...)” [7]. Por essas fontes, Todorov adiciona mais um fator a conquista: o comportamento de Montezuma. Para ele a razão que mais se destaca entre outras, para a conquista espanhola sobre os astecas é o fato de Montezuma não se opor a Cortez. Afirma ele que, Montezuma, apresenta “(...) um comportamento ambíguo, hesitante (...)” [8]. Um outro fator citado é a “(...) exploração que Cortez faz das dissensões internas entre as diversas populações que ocupam o solo mexicano”[9]. Ou seja, Cortez não fez uso apenas da artilharia, da superstição ou religião asteca para vence-los. O uso da passividade que Montezuma demonstrou para com os espanhóis e os levantes ocasionados entre diversas tribos foram fatores estratégicos usado por Cortez na conquista.  
O problema da comunicação no processo de conquista
            Além do que já foi posto no desencadeamento do processo de conquista pelos espanhóis, concernente aos Astecas, não se pode ignorar ou desprezar a formulação da comunicação das duas sociedades em questão. Os astecas eram dados a um aglomerado de símbolos que formam uma complexa linguagem para suas interpretações do cotidiano em seus diversos aspectos, desde a vida familiar as táticas de guerra. Os índios fazem uso de adivinhações, como por exemplo, a adivinhação cíclica que compõe seu calendário de treze meses, que é de suma importância para avaliar as ações dos homens, pois segundo eles “(...) Saber a data de nascimento de alguém é conhecer seu destino [...]” [10]. Uma outra forma de adivinhação era o presságio. Nessa forma, “Qualquer acontecimento que saia um pouco do comum, afastando-se da ordem estabelecida, será interpretado como prenúncio de um outro acontecimento, geralmente nefasto” [11]. Assim, adeptos dessa forma de comunicação que se enraíza mais com o mundo que com o individuo, que se embasa nos símbolos místicos e religiosos, que tem um caráter mais coletivo que mesmo individual, os astecas diante dos espanhóis não sabem o que fazer, pois para eles o fazer depende do saber, do conhecer os próprios presságios e dos agouros que estão sobre os inimigos. Nesse contexto, os espanhóis exercitam a comunicação entre si; é a interação de individuo a individuo; é o elemento do grupo interagindo com o grupo. Já os astecas, em sua sociedade, estão acostumados a confiarem seu cotidiano a alguém “que interpreta o divino, o natural e o social através de indícios e presságios, com o auxilio do profissional que é o sacerdote-adivinho” [12]. Esse é um aspecto que pode explicar a reação não só do próprio Montezuma, mas dos índios diante de seus algozes, ou seja, “(...) as profecias exercem um efeito paralizante (sic) sobre os índios que têm conhecimento delas e diminuem-lhes a resistência (sic) (...)” [13].
            Por outro lado os espanhóis, ao deparar-se com os nativos, terão uma interpretação de superioridade diante dos mesmos. Irão considerá-los como bárbaros, “(...) não chega nem a ser um homem, e, se for homem, é um bárbaro inferior; se não fala a nossa língua é porque não fala língua nenhuma, não sabe falar, com pensava Colombo” [14]. Se por um lado os astecas recorrem aos deuses para saberem como agir diante dos espanhóis, e entregues as fatalidades descritas por presságios e profecias religiosas envoltas de pessimismo e desmotivação, pois a luta parecia improdutiva, assim, são derrotados mais por suas crendices que mesmo pelo arsenal dos espanhóis. Já estes, achando-se superiores em cultura e humanidade, desprezam os nativos como humanos e portadores de cultura própria. 

As continuidades no processo de conquista e características da economia adotada
            A vitória de Cortez sobre a nova terra já é um fato consumado. As relações de paz ou guerra, conflitos ideológicos, racistas e culturais fizeram parte de um processo que, ao menos os europeus, souberam tirar partido de uma confrontação primeira, de um relacionamento primário entre dois povos que (se acredita) se desconheciam por estarem separados pelo imenso mar e pela ignorância marítima do além horizonte.
            Obstante a conquista, a forma pela qual se realizara deixaram marcas que até o inicio do século XIX ainda eram relevantes. O feito heróico dos europeus que, em busca de ouro para encher os cofres de Castela, se depararam com silvícolas e, de forma sutil ou não, não só se apropriaram da riqueza dos índios como os venceram em batalhas e ainda mais, os escravizaram às minas e nos campos, nos sistemas de Mita e Encomienda.
            O sistema implantado na colônia espanhola é avaliado como débil, porém capaz de sobreviver a tal qualidade. Ainda no século XVIII, era vista como caduca, ou seja, uma estrutura arcaica. Concentrava-se, tão somente em acumular riqueza com o mínimo de investimento possível. Isso acarretou conseqüências para o sistema comercial entre Espanha/Índia, ou seja, os custos na participação da Metrópole tornaram-se elevadas. Tal sistema levou “(...) a supremacia econômica concedida aos representantes locais da economia metropolitana, o fisco e os comerciantes que asseguravam as ligações com a península; e, (...) a manutenção quase total dos demais setores da economia colonial (...)” [15]. Isso evidencia vantagens a Metrópole espanhola e desvantagens aos setores que foram dominados na colônia. Mesmo assim, os colonizadores continuaram a administração econômica em favor de Castela na terra conquistada. Essa economia não estava apenas nas minas de ouro, mas estendeu-se para agricultura, e artesanato. Os indígenas eram “encomendados” e levados para longe de suas tribos para trabalharem e, por não conseguirem pagar os tributos aos seus donatários, muitos ficavam impossibilitados de retornarem ao seu lugar de origem. Um outro fator de economia barata é a imposição aos índios de trabalho forçado na industria de mineração e têxtil (a Mita).

            A diminuição da população (por conseqüência dos sistemas adotados) irá provocar uma catástrofe demográfica no século XVII. O setor agrário é afetado e há uma substituição da agricultura pela pecuária (caso do México). Segundo Donghi, isso tem aspectos feudais, pois os europeus que, passam a substituir os indígenas no trabalho, começam a exigir a “(...) bacienda, unidade de produção agrária dirigida pelos espanhóis” [16]. Em fins do século XVII, a colônia que estava sob pacto comercial, vê-se diante de uma reforma que visava trazer estabilidade e liberdade de comércio entre Castela e as Índias. Essas reformas resumiam-se na admissão da Metrópole que o ouro não era a única contribuição da colônia e, que, as colônias poderiam ser usadas como mercado de consumo. A reforma comercial consolidou e promoveu modificações na economia colonial, porém de forma limitada. Essa reforma visava dificultar o comércio entre as colônias objetivando, assim, o comércio direto com a Metrópole. Mas a própria Metrópole não tem força suficiente para fornecer produtos industriais aos seus domínios imperiais. Ademais “o novo pacto colonial naufraga, fundamentalmente porque a Espanha consegue apenas se transformar numa pesada e onerosa intermediaria entre as suas Índias e as novas metrópoles econômicas da Europa Industrial” [17] .

As relações Madrid/Hispano-América e o problema da falta de integridade regional e seu relacionamento com o Brasil
            Como conseqüência das reformas e do número constante de europeus na América, e pelos mesmos disputarem palmo a palmo uma parte de terra para sobreviver, invadindo assim áreas já delimitadas, ocorre o crescimento do sentimento de descortesia pela Metrópole. Os próprios europeus instalados na colônia e que retiam cargos administrativos sentem-se isolados da coroa. Disso pode-se concluir que a implantação da sociedade hispano-americana se deu de forma desigual. Referindo-se a distribuição da população, Donghi ressalta que “(...) a distribuição desigual era imposta em parte pela geografia” [18].
            Mas o mal estar não estava apenas centrada na má distribuição dos lotes. A população urbana também estava descontente com os administradores e com os clérigos. Além do mais não se concebia esperanças de elevação social a população. Pesava nessa relação também o destino do fruto do trabalho produzido na colônia. Havia uma classe alta que “(...) é escandalosamente rica e sua prosperidade contrasta com a profunda miséria popular” [19].  Essa classe estava concentrada especialmente no México, região de maior desenvolvimento. Mas apesar de tal produção, que chegou a ser superior a da própria Metrópole, não é repassada aos trabalhadores de maneira digna, antes se concentra a uma distribuição privilegiada a algumas pessoas; ademais, noventa e cinco por cento da prata produzida anualmente no México era direcionada à Metrópole. Apesar de receber as riquezas da colônia, a Espanha não investia capital na modernização dos artefatos industriais, ou mesmo, direcionava parte dessa riqueza para o bem da colônia.
            Paralelo às colônias espanholas, ou seja, situado na América do Sul, o Brasil, colônia portuguesa, é alvo no século XVIII de transformações que não são observadas nessas outras colônias de Castela. Nessa colônia, a produção de açúcar ao norte é transferida para a área central e a exploração das minas (na mesma região), desde o século XVII, se torna ponto de confronto entre os colonos e os cobradores de impostos da coroa. Boa da produção era transferida a Portugal. Ao norte, no Maranhão, a produção nos campos de algodão é um fator de desenvolvimento da região. Ao sul, dar-se-á um aumento da pecuária.
            No entanto, século XVII, a produção açucareira tinha um monopólio nas mãos de Portugal/Espanha e de uma parte do Brasil colonizado por espanhóis. Contanto, com a invasão da Holanda no norte do Brasil e sua subseqüente expulsão (principalmente pelos sesmeiros pernambucanos e baianos), os holandeses aportam nas Antilhas e abrem concorrência a industria do açúcar, promovendo assim, a decadência dessa produção econômica brasileira.
            Como na relação espanhola com suas colônias, Portugal também não investia nas técnicas utilizadas na produção de sua colônia. O Brasil se via a produzir açúcar com uma organização arcaica, ultrapassada e com técnicas também inseridas no mesmo contexto. Essa industria sobreviverá paralela ao expansionismo de outras atividades no Brasil. Enquanto a união Ibérica esteve em vigor (até 1640), a economia brasileira susteve-se; após a separação, o Brasil ver-se em dificuldades a manter comércio com as colônias espanholas. Mesmo assim, provinda de Potosí, prata é comercializada no Brasil através de um comércio de troca, considerado clandestino, mas com um volume permitido entre colônias espanholas e portuguesas, assegura que o Brasil possa comercializar esse metal.
            Um outro fator que diferencia a economia do Brasil da espanhola é que o Brasil não se servia apenas da mão de obra indígena, mas também de escravos africanos. Para defender a produção primeira da economia açucareira, a caça ao índio se desenvolveu, até mesmo na crise recessória. Mas, diferentemente dos espanhóis, Portugal absorverá em sua colônia a mão de obra advinda da África e institui a escravidão no Brasil, isso irá incluir no Brasil uma cultura e mestiçagem heterogênea até hoje existente. Essa obtenção de mão de obra escrava tanto ritmou a produção nas minas como também trouxe um fluxo considerável no censo demográfico populacional no território brasileiro no final século XIII.
            Semelhante às colônias espanholas, a colônia portuguesa na América também enfrentou reformas administrativas. E de igual modo só obteve êxito em algumas regiões. O marquês de Pombal implantou no Brasil um processo de investimento para o desenvolvimento da agricultura brasileira. Esse processo visava um sistema a beneficiar companhias comerciais. O fracasso foi relevante, principalmente na industria açucareira que só conseguia difundir sua produção em um mercado já existente. Como nas outras colônias espanholas, as posses de terra eram doadas a classe aristocrata que “(...) não estava disposta a ceder o controle do mercado local a uma companhia de ultramar” [20]. Essa resistência se dava no Norte/Nordeste brasileiro, já que, no rio de Janeiro existia um grupo de aristocratas ligados ao mercado ultramar, contrário a existência de tal fato nas colônias espanholas.
            Concernente a administração da colônia, Portugal se ver em desvantagem frente à Espanha. A estrutura econômica portuguesa bem mais desestruturada que a espanhola, e isso é demonstrada pelas relações sociais. Portugal (assim como também a Espanha), não consegue conciliar exploração e conquista. A relação do Brasil como colônia com Portugal é de simples estabelecimento comercial ou fonte de produção aurífera ou açucareira a suprir as necessidades dos europeus (embora seja vista como escassa essa produção). Outro fator é a estrutura administrativa: tudo provinha de concessões políticas. A possessão de terra dependia da coroa, que, segundo suas prerrogativas, distribuía (doava) lotes para comerciantes portugueses explorarem a colônia. Isso traz sem dúvida a expansão demográfica colonial, pois a implantação de famílias no território levava ao aprofundamento nos sertões, e o aumento de vilas urbanas.
            A relação hispano/americana com a situação do Brasil colonial é bem resumida na interpretação de Donghi: “Todas essa diversidades nos levam a uma diversidade essencial: na América espanhola, a propriedade da terra e a riqueza nem sempre estão legadas; no Brasil, ocorre o inverso, e, por isso, a classe dominante dispõe de um poder que falta freqüentemente à sua congênere da América espanhola” [21].    

A América Latina atual sob a perspectiva da herança colonial
            Não há como negar a influência do sistema adotado pelas metrópoles colonizadoras sobre suas colônias até os dias atuais. Desde os dias em que os europeus aportaram no continente recém descoberto, o ritmo do curso, até então natural dos habitantes nativos, sofreram alterações com a absorção do desconhecido, desde o âmbito cultural até o religioso; ainda mais aspectos trabalhistas (se não tão diferenciados dos aplicados principalmente na América espanhola) de escravismo, de exploração e aniquilação da mão de obra pela debilidade física, etc.
            Os meios utilizados pelos paises ibéricos a suas colônias já as deixaram debilitadas em todos os aspectos. O processo de vampirismo das riquezas da terra desde as naturais, minerais, físicas e até culturais, são de uma conseqüência até hoje vivida nos paises latinos. A herança que a América Latina – e essa herança é colonial – está intrinsecamente relacionada aos princípios econômicos de exploração já existente na colônia, que sobreviveu até os dias atuais, apontando para um endividamento que é fruto de mentalidades retrogradas deste contexto colonial que, de forma indutiva, monopolizara o sistema numa administração subjetiva.
            A independência conquistada pelo bloco dos países andinos, platinos, antilhanos e sul atlântico, trouxe aos mesmos (embora independentes um do outro) uma autonomia política, social e econômica, que é - aparentemente - um tanto superficial. Embora esses países tenham desenvolvido ao longo do tempo uma diversidade de planos econômicos e administrativos, não conseguiram recuperar-se da sangria generalizada imposta pelas metrópoles na época colonial. Os países latinos trazem em seu bojo uma divida aos países saxônicos de difícil perspectiva de saldar seus compromissos.
            Além do fator econômico, um outro que se destaca é o da catequese religiosa. Os latinos se viram invadidos por costumes, ritos e tradições alheios a sua conduta nativa. Seus deuses e seus cultos foram paganizados e ridicularizados; suas cidades sagradas, seus templos e altares foram derribados e sobre suas cinzas foram construídos templos da religião européia que se assenhorou do território conquistado. As divindades indígenas foram miscigenadas aos santos católicos, para que assim, aquela comunidade pudesse absorver tradições cultuais e serem cristianizados. Hoje, tanto no México como nos andes, no Peru e até mesmo no Brasil, divindades africanas e indígenas se misturam ao panteão da agiolatria católica.

            Ainda hoje se pode ouvir o som dos canhões de Cortez soar sobre a cultura latina assustando os nativos que desconheciam o poderio bélico de tais armas. Não são tiros impulsionados por pólvora, mas a discursos de unidade econômica e política que, no fundo, busca uma dominação através da coerção do embargo econômico e da violência moral indiscriminada.
            A Europa conquistou e impôs seu domínio. Certamente que nem todos habitantes da América espanhola ou portuguesa se renderam passivamente ao invasor, mas aos poucos foram se habituando ao domínio do feitor. Porém, mesmo a contra gosto, se tornaram reféns e escravos de uma sociedade que se achava superior. Hoje a América Latina se põe em uma situação que, por fatores psicológicos de sua história no passado, pela herança colonial que trazem consigo, tende mais uma vez a submeter-se aos demando dos poderosos.

 BIBLIOGRAFIA

DONGHI, Túlio Halperin. – História da América Latina; Circulo do Livro;
ELLIOT, J.H., BERTHEL, Leslie (org) – História da América Latina: A América Colonial I; Ed. USP; 2. Ed.
TODOROV, Tzevetan. – A Conquista da América: A questão do outro; Ed. Martins Fontes;        



[1] TODOROV, Tzvetan – A conquista da América – a questão do outro; Ed. Martins fontes; p.51.
[2] ELLIOT, J.H. p. 162
[3] Idem p. 160
[4] Idem p. 163
[5]  Idem p. 162
[6] Idem
[7] TODOROV, Tzvetan – A conquista da América – a questão do outro; Ed. Martins fontes; p
[8] Idem p.53
[9] Idem p.55
[10] Idem p.62
[11] Idem
[12] Idem p.67
[13] Idem p.72
[14] Idem p.73
[15] Donghi, Túlio Halperin – História da América Latina; p. 12
[16] Idem p.14
[17] Idem p. 18
[18] Idem p. 37
[19] Idem p.20
[20] Idem p. 57
[21] Idem p.60

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br

terça-feira, 22 de março de 2011

Procurando Agradar a Deus

Roberto Albuquerque Santos
Proporcionar um estado de satisfação ao outro sempre foi e é um desafio a qualquer ser humano; se entre seus semelhantes o homem encontra dificuldades em agradar um ao outro, quanto mais quando se trata do seu relacionamento com a divindade a quem segue. O politeísmo desenvolveu uma forma de comunicação com as divindades através das forças da natureza. Quando a divindade estava satisfeita a natureza lhes proporcionava fartura e bem-aventuranças; já fatalidades (enchentes, secas, etc) era um indicador que os deuses estavam insatisfeitos. Mediante a essas condições não é difícil comprometer o homem a uma constante dependência de uma “força” externa, superior, de um poder invisível, de “um ser” que seja poderoso e lhe dê segurança, fartura e felicidade. Não entendendo as manifestações (forças) da natureza, o homem atribuía tais fatos à “reações dos deuses”. Esses deuses precisavam ser “desestressados” de sua ira ou recompensados por sua benevolência. Embora esse costume só tenha registro após o dilúvio, já encontramos mesmo antes desse acontecer, a tentativa do homem restabelecer uma forma de “intima” amizade com Deus.    
Ora, em primeira instância, um presente tem o objetivo de gratidão, fazer aliança, promover satisfação ou mesmo um meio de corrupção. Não há relato onde uma certa comunidade em determinado tempo honrasse uma divindade sem oferendas ou se relacionassem entre si sem a presença de um objeto de cortesia. A iniciação do oferecer acontece já na infância quando se tem noção de posse. Dividir ou ficar só para si, guardar como produto de barganha ou qualquer que for a intenção é receptiva no ser humano quando o mesmo começa a ter percepção de valor, utilidade, conveniência, dominação, etc. É nesse contexto social que as relações se clareiam, ou seja, o homem aprende que sua participação no meio do grupo depende de troca de valores, favores; que para possuir algo precisa se desfazer de outro objeto; que para alimentar um afeto (amizade, paixão, etc) é necessário compartilhar do mesmo afeto.
O ser humano tem em si a astúcia de registrar seus feitos, compartilhando, dessa forma, com sua posteridade ou com toda humanidade acontecimentos vividos em sua época. Os registros históricos que permeiam a vastidão de fatos das mais variadas comunidades mundiais trazem desde crônicas a poesias. O conteúdo desses relatos – entre outros – ovaciona heróis, dramatiza a paixão, e, não poderia deixar de ser, testemunha a tentativa exaurida do homem em agradar seu deus ou seus representantes (Profetas, Sacerdotes, etc). Entre inúmeros exemplos, podemos citar a Odisséia, de Homero, onde Ulisses procura agradar um cego oráculo que se encontra no Hades, e, portanto, para saber o caminho de volta para casa, leva a ele um bode como oferenda. Na Epopéia de Gilgamesh (poema mesopotâmico que relata o dilúvio), Upnapistim (referente ao Noé bíblico) oferece um banquete aos deuses por lhes terem poupado da inundação que subjugou seus contemporâneos.    
A Torá judaica, no relato da gênese de todas as coisas, declara em suas páginas que após a queda da raça humana em Adão e Eva (e sua conseqüente expulsão do Jardim do Éden pelo desacato à autoridade divina por sua ação em desobedecer a uma ordem direta), os mesmos habitaram na região conhecida posteriormente como Mesopotâmia e ali tiveram filhos. O primogênito chamava-se Caim; o outro citado chamava-se Abel. O mais velho era lavrador, “homem da terra”, agricultor; o outro era pastor de ovelhas, pecuarista. Embora o uso dos termos (agricultor e pecuarista) seja anacrônico essas eram a função de cada um. Conta-nos o autor do Gênesis que cada um levou uma oferta advinda do produto de seu trabalho a Deus. Houve uma manifestação graciosa por parte de Deus para Abel e sua oferta, não acontecendo o mesmo para com Caim e, conseqüentemente, para o que ofertara. Enquanto nas epopéias e mitologias o que agrada ou desagrada ao deus, soberano ou qualquer outro ser, é o tipo de oferta, a narrativa bíblica insere uma importância a quem oferta e, não propriamente ao que ofertou. Então não há dificuldades em entender que o que não agradara ao SENHIOR não fora à oferta de Caim, mas o próprio Caim.

Após o êxodo dos israelitas do Egito, o SENHOR condicionou o seu povo a observância da Lei e, com ela, a oficialização dos tipos de ofertas, animais a serem utilizados, como seria a liturgia, etc; anteriormente não era assim. Essa oficialização se deu séculos após o dilúvio; o ocorrido entre Abel e Caim aconteceu antes do dilúvio. Mas qual a relação entre os envolvidos? Nesse caso, a condição do ofertante. Essa condição não se vincula a observância da Lei ou mesmo o ser primogênito; ser ou não bem posicionado economicamente na sociedade; ser ou não religioso; ser culto, rei ou plebeu; o que importa é a intra-relação que o homem tem com Deus, com seu próximo e consigo mesmo. Nessa tríade, o agrado de Deus se manifesta em o homem está bem com seu próximo, segundo o que encontramos no Novo Testamento, quando Jesus diz que se alguém chegar junto ao altar para ofertar e atentar para o fato de que seu próximo tem algo contra ele (o ofertante),  tal pessoa deveria suspender a oferta e só efetuá-la após a reconciliação.

Mas não foi apenas a “oferta” de Caim que o SENHOR rejeitou. Há uma diversidade de relatos que apontam uma rejeição de Deus a intenções de agrado. O salmista em sua poesia afirma que se Deus se agradasse de ofertas ele a Ele as daria. Aqui o contexto nos faz entender que o melhor é lermos que se Deus se agradasse “tão somente de ofertas”, ele, Davi, as daria. As ofertas pelo pecado visavam “aplacar a ira de Deus”; o Salmo tem como conteúdo a agonia do homem frente a seu pecado que o acusa dia após dia. E isso gera uma dificuldade: como agradar a um Deus cuja natureza santa contrapõe a natureza de quem oferta em todos os sentidos? Ao mesmo tempo em que a dificuldade se apresenta ela se torna necessária; ela existe, é patente, ou seja, não existe cumplicidade ou compartilhamento da mesma natureza entre adorador e adorado. Deus é criador, Santo, etc. O homem é criatura, pecador, efêmero, etc.
Por essa razão não há nada que o homem possa fazer para conceder um estado de satisfação a Deus, pois o que a ele se direcionar a ele já pertence (ver Salmo 24). Naturalmente o recebimento por parte de alguém de algo que não possui lhe traz satisfação e, esse, por sua vez lhe concederá valor. No caso entre o homem e Deus isso é impossível. Por isso só podemos entender que a satisfação de Deus no homem se manifesta pela ação desse tomada de forma espontânea e com características que envolvam adoração e gratidão. Então não é apenas o que se leva a Deus, mas como se leva; não é apenas quando se chegar a Deus, mas como se deve chegar a Ele.
Essas prerrogativas nos levam a entender um dos muitos porquês da concessão divina ao homem do poder de escolha (livre arbítrio). Em primeiro instante, ao se imaginar que Deus se alegra ao perceber o homem tomar partido a seu favor, ao que ele escolheu e a observância de sua Lei, etc, cria-se a imagem de um Deus carente de afeto e atenção e, até mesmo, de mimo. Mas não é esse o objetivo da relação adorador e divindade caracterizado na adoração. Ao analisarmos as Escrituras temos claros registros que Deus é quem presenteia o homem; não o adora, de forma alguma, mas o ama; e o ama de tal maneira que lhe concede Graça, dons espirituais, capacidade de entender o que se encontra no mundo metafísico, ou seja, essas dádivas divinas descaracterizam a imagem de um Deus que precise do homem para obter alguma coisa. É por meio então da faculdade da livre escolha que o homem reconhece sua posição ante Deus; decide o adorar com sua vontade (razão) aliada a fé; essa adoração não fica vinculada apenas na materialização do que se oferta (ou seja, a oferta materializa o que se dar por fé), mas em como se relaciona com o restante da criação. Essa relação com o restante da criação não pode interferir na comunhão entre o homem e Deus; é do agrado de Deus que o homem conserve a natureza, pois deixou esse cuidado em suas mãos, mas não que a adore ou faça dela parte da divindade – como é o caso do panteísmo (tudo é deus e deus está em tudo). Por conseguinte, ao tomar a postura de observar o que é reafirmada na Lei mosaica sobre o amar a Deus sobre todas as coisas – essa prerrogativa é anterior a Lei, pois Deus já espera do homem tal atitude – o adorador desfruta da livre escolha alcançando um nível de maturidade (consciente ou não) tal que o mesmo não mais se condiciona a fatores internos ou externos a si tornando-se pró-ativo em sua decisão de viver para Deus, a tal ponto que a absorção do primeiro mandamento é espontânea, pois agradar a Deus é sua prioridade.
No entanto, essa decisão implica em conflitos que o adorador terá que saber contornar. Terá que subjugar seu “eu” e ir contra suas vontades; a renúncia será uma constante e seu “modus vivendis” será de todo afetado. Mesmo que a opção de viver para sua divindade pareça uma forma de vida enclausurada e alienada ou até mesmo definida como fanática, e mesmo não cabendo à opinião externa o diagnóstico da atitude tomada, o homem precisa saber lidar com tal realidade. O “confinamento”, monasticismo ou outro meio de vida onde o homem se isola para agradar a Deus não condiz com o texto Bíblico em sua totalidade; tais atitudes são – em parte – individuais, outras – em maioria – são resultados de “pura” religiosidade.
Portanto, agradar a Deus não é colocá-lo em um êxtase de satisfação pessoal em referência a quem o adora, pois não há nem sequer requerimento para isso; outrossim, a satisfação de Deus não se insurge pela forma de se entender o que seja satisfação, escolha ou bem-estar, pois Ele não necessita ser satisfeito; quando o homem sente a necessidade de Deus e o busca, confessa sua fraqueza e a Ele se entrega em adoração, a satisfação que sente em Deus o dará força e, assim, sentirá que o SENHOR em Si se satisfaz, pois, como pergunta a si mesmo o salmista, o que daria ele ao Senhor por todas as bênçãos a ele concedidas? Não encontra resposta e torna para si o ritual litúrgico que envolve invocação do nome de Deus e adoração pela salvação Nele.                       

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poéticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br

domingo, 13 de março de 2011

CRISTIANISMO E PODER POLÍTICO: TUDO A VER?

Roberto Albuquerque dos Santos

Um dos maiores desafios da cristandade desde seus primeiros dias foi conforma-se ao Reino de Deus e, assim, permanecer fiel, ser luz do mundo e sal da terra; cumprir sua missão de anunciar o Evangelho do Nazareno e não se agregar aos ensinamentos dos fariseus e tampouco andar ao lado do Império.
Mas essa aliança nefasta por muitas vezes se concretizou; depois do ano 313 D.C., quando Constantino começou o processo de transformação de confissão religiosa do Império Romano, o cristianismo experimentou uma prova de fogo, onde a pureza doutrinária e a sinceridade devocional se revelariam. Essa junção, embora danosa para a cristandade, resultou em suntuosos “privilégios” para os cristãos que “representavam” uma nova forma de cristianismo: um cristianismo não professo, mas profissional; não um cristianismo da cruz, perseguido, mas um “cristianismo” que perseguia em nome de Deus e que usava a cruz para legitimar suas atrocidades. As Cruzadas, as caças as bruxas e o Santo Ofício (Inquisição), são exemplos do enunciado.
Embora o papel dos reformadores tenha sido relevante, no entanto, não deixaram – de certa forma – de se incomodar com a cisão entre o Estado e a Igreja no que concerne em que tanto a Igreja quanto o Estado eram instituições divinamente ordenadas. Assim, era inconcebível para ambos (Igreja e Estado) a presença do povo (civil) na participação direta do governo estatal ou eclesiástico. Portanto, os protestantes e o clero dominante – no que se refere à concepção vertical de governo continuaram, de certa forma, ligados. O acesso do povo às Escrituras – na Alemanha, por exemplo -, reforçou os poderes do Estado sobre o povo e a obediência destes para Aquele. Se já na Idade Média esse discurso era dogmático da Igreja Imperial, com a Reforma, se tornou uma aspiração estar ao lado do Estado. Ambos foram sensuais e facilitaram a dominação por suas ideologias, pois lançaram mão da teocracia e representação divina na terra. Mesmo que os ideais iluministas tenham provocado uma mudança de comportamento nas camadas sociais, no entanto, o arraigamento secularizado do pensamento e ensinamento religioso não deixou de mostra-se encravado na tradição popular.
O nascimento do século XX se deu em voltas do que absorveu do século anterior, onde, os governantes, embebedavam as massas com a presença heróica dos compatriotas ou mesmo a eugenia. Em volta com o nacionalismo, a sociedade oriunda nos fins do século XIX, viu implodir na metade da segunda década do século XX, uma Guerra, até então, sem igual, em mortandade, ideologia e divisão política no mundo: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Humilhada, a Alemanha foi obrigada a acatar a política de Weimar. Perto dos meados do Século passado – 1933, exatamente – a Alemanha começou a ser tutoriada pelo Chanceler Adolf Hitler. Influenciado pelas idéias de Gottlieb – filósofo alemão do século XIX – o Fünhrer alvoroçou os ideais nacionalista de um povo humilhado algumas décadas anteriormente à sua assunção política. A união do povo alemão e a instauração(ou restauração) da raça ariana eram matizes de sua política, além do nefasto desejo de humilhação/extinção ao povo considerado por ele como os “responsáveis” pelo cristianismo e até mesmo o capitalismo: os judeus.  Assim, judeus que ocupavam cargos publicos foram afastados e economias foram confiscadas. Sinagogas violentadas e casamentos com alemães proibidos.

Enquanto isso, na sociedade religiosa, os denominados “cristãos alemães”, na voz de Hermann Grüner, declarava que a plenitude do povo alemão se concretizava no Fünhrer (Hitler); Cristo estaria, assim, no meio deles por causa da ascensão ao poder de Adolf. Julius Leutheuser, Pastor – exclamou: “Cristo veio até nós através de Adolf Hitler”. Além das muitissimas confissões de apoio, músicas sacras foram versionadas ao regime do nacional-socialismo, como, por exemplo, a que expressa o nascimento de Cristo, Noite Feliz: “Noite de paz, noite santa, tudo está calmo, tudo está luminoso; só o Chanceler, tenaz na luta, vela pela Alemanha noite e dia, sempre a pensar em nós”.
Em 1933 a igreja era liderada por cristãos adeptos do regime e buscavam uma junção ecumenica das igrejas evengélicas alemãs; era um flerte entre igreja e Estado, mas não durou muito tempo. Contrário ao limite de poder (mesmo simpáticas ao nazismo as Igrejas não admitiam poder absoluto), Hitler mostrou sinais de aversão às comunidades evangélicas, criando em 1935, o Ministério dos Assuntos Religiosos. Com essa iniciativa, o Fünhrer se afastava do apoio “cristão”. Em contrapartida às atitudes dos “cristãos nazistas”, foi criada a Liga Emergencial dos Pastores (1934), por iniciativa de Martin Niemöller . Isso resultou na criação da Igreja Confessional, que redigiram na Declaração de Barmen (escrito, principalmente por Karl Barth) uma manifestação às igrejas alemãs para que as mesmas retornassem às doutrinas centrais do cristianismo e se desligassem dos objetivos do Estado. Foram reprimidos pelo governo e pela igreja estatal; em 1945, Martin Niemöller e seus seguidoes, ainda vivos – após oito anos de prisão –, confessaram ter se enganados em suas declarações contra o regime. Mas houve um entre eles que não negou seus ideais: Dietrich Bonhoeffer. Pastor luterano, conhecera Barth quando era professor de teologia, em Berlim. Junto com Niemöller fundou a Liga Emergencial de Pastores; nos anos que pastoreou igrejas (Na Inglaterra), em seus sermões, criticou duramente o regime nazista. Retornou a Alemanha em 1939, um mês após ter fugido para os EUA; para ele seria honroso participar do sofrimento do povo alemão, em sua reconstrução nacional, como escreveu a Niebuhr (Seu professor, que o acolhera nos EUA). Foi preso pela GESTAPO (policia alemã) por envolvimento contra o regime e enforcado poucos dias antes da Alemanha declarar rendição aos aliados.
A simpatia dos “cristãos nazistas” ao social-nacionalismo tinha seus interesses. Embora o nazismo tenha discursado uma nova era na vida da humanidade e tenha agido de forma contrária aos ideais proclamados, não deixou de ser sensual para se “viver a sua sombra” e continuar a ter “liberdade para professar a fé cristã”.  Nem todos tiveram a clareza do que estava acontecendo, como Bonhoeffer e outros cristãos. O País estava se reeguendo da guerra da primeira década e as medidas anunciadas envolvia criação de empregos e independência nacional, enfim era o início em busca da antiga glória perdida. Portanto, muitos continuaram na Alemanha. Alguns ao perceberem as vedadeiras intenções do governo, fugiram; outros foram perseguidos por sua raça, filosofia, ideais, politicas e até teologias. Barth e Tillich, por exemplo, tiveram que se exilar; Bultman continuo em sua cátedra sob constante pressão do Estado, buscando sempre suas reservas para não se envolver contra o regime e assim, continuar ensinando o Evangelho. Mas não foi apenas as igrejas evangélicas que foram seduzidas, induzidas e iludidas; o catolicismo também teve seus dias claros e escuros no regime. Embora pareça obscura a presença da igreja na época nazista, no entanto, houve uma reação – se não conjunta ao menos fragmentada – dos cristãos que não deixaram de se opor às pretensões do novo Fünhrer.
Provavelmente há muitas manifestações contrárias ao relacionamento Igreja/Estado, desde o primeiro século, que não temos conhecimento. Os fragmentos que chegaram a nós é o que se preservou ou se anunciou dos registros construidos a partir de um prisma antagônico ou concepcional de vertente diversa ou centrada, quer concebido de boa mente ou a história do vencedor sob seu olhar da “verdade”. Mesmo assim, a pilhagem de documentos escritos nos séculos passados (não que o documento fale por si só) nos mostram a prejucial caminhada da Igreja quando ompartilha um poder heterogêneo com a politica instaurada. Enquanto as crônicas Estatais relatam o prejuízo causado pela religião em seu governo, o mesmo se dar com o meio eclesiástico que reclama da intervemção do Estado em seus assuntos dogmáticos e administrativos. Enquanto a politca não demonstra querer ser uma religião oficial de determinado governo, o cristianismo já – de certa forma – foi visto como uma ameaça às pretensões governamentais, tanto na Europa como no Novo Mundo. Lutero já sustentava a teoria dos dois governos estabelecidos por Deus (Religião e Política). Ora, não se pode deixar de considerar que enquanto a política se preocupa com o bem estar do cidadão, a religião procura inserir nesse cidadão uma conduta ética e moral, tanto para com Deus quanto para com o Estado. Então soa a pergunta: Cristianismo e poder político: tudo a ver? Não teria sido essa a esperança da Igreja na época medieval e da Igreja alemã: Contribuir com o Estado para uma sociedade “perfeita”? Não estaria o discurso nazista em harmonia com os interesses eclesiásticos da época? Se o povo está em perfeita ordem , é disciplinado e obediente uma nação terá progresso e se erguerá do caos estabelecido. Essa filosofia se coaduna com o Positivismo de August Comte. Mas ele não foi o primeiro a pensar assim; Essa também foi a visão de Constantino, que por mais que tenha sido “bem intencionada”, mostrou de forma enfática, a existência de dois poderes paralelos.           

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

O IMAGINÁRIO DEMONOLÓGICO EUROPEU NAS AMÉRICAS

Roberto Albuquerque dos Santos

Um dos campos de estudos onde a metafísica é fundamental é a demonologia. O assunto divide os homens em qualquer estratificação da pirâmide social, cultural, religiosa, teológica e, muito mais na esfera do imaginário popular.
Advinda como um desenvolvimento aprofundado em estudo por Agostinho, o demônio ganha uma multiformidade e estatuto revestida de concretização, ou seja, se materializa para ser dissecado no campo teológico e não apenas uma personificação do mau.
Inúmeras obras foram desenvolvidas entre os séculos XVI e XVIII sobre o tema. As perseguições as manipuladoras de “dons mágicos” (bruxas, feiticeiros e outros), não têm a exclusividade do ataque dos escritores: as críticas também se objetivam quanto à presença do demônio como parte integrante dos sermões religiosos. Enquanto os “naturalistas” eram condenados por obrarem milagres em nome do Diabo, a Igreja o usava com suas obras para supliciar seus fiéis em uma analogia onde as obras contrárias a vontade de Deus (entenda-se o Rei e a Igreja) na terra eram atribuídas como obra maligna. O assunto estende-se no campo religioso, teológico e histórico, mas em síntese, a perseguição era por quem manifestasse aversão à ideologia dogmática da Igreja.
O novo mundo aprece no cenário mundial com a Europa em meio a uma reforma interna das estruturas litúrgicas e kerigmáticas de uma Igreja abalada por um movimento renascentista e iluminista, onde a afirmação carece de investigação e a “fé” é encarada como um artifício de manipulação às classes desprivilegiadas de conhecimento cientifica e literário. A ordem Jesuítica, a venda de indulgências e o Concílio de Trento surgem para fazer frente ao movimento conhecido como Reforma Protestante.
Em busca de novos adeptos, a Igreja lança missões às novas terras descobertas que em seus alforjes trouxeram – além da pregação denominacional – a figura estereotipada do Diabo inspirada no mito grego de Hades e do romano, Plutão. Peças teatrais que desde os séculos XII e XIII se espalharam entre o povo, os nobre e os clérigos – onde a Divina Comédia de Dante Alighieri retratava o inferno com detalhes – criou uma espécie de mundo paralelo entre o mundo material e o metafísico; a icnografia se estabeleceu no século XIV no mito de Pã (sátiro ou fauno), deus grego com chifres, rabo e asas, imagem que se estabeleceu no imaginário facilmente até hoje. Mas essa “pregação” aos habitantes do novo mundo – denominados religiosamente de pagãos – não foi uma exclusividade da Igreja. Colonizadores e conquistadores também se dirigiam aos índios como bestas infernais e sem espíritos; animais com forma humana. A ferocidade dos índios, sua ignorância acerca do Deus Cristão, sua cultura e antropofagia, foram argumentos para classificarem os mesmos como invólucros do Diabo. No entanto, o Diabo era uma figura inexistente, tanto no norte quanto no sul das Américas: foi “trazido” pelos Europeus.
A partir da absorção do panorama idolátrico e totalmente alheio ao europeu, os mesmo procuram realizar uma catequese radical, onde livros e templos foram queimados; altares destruídos, culturas dizimadas, povos destruídos ou escravizados. No entanto, é preciso esclarecer que a conquista espanhola, tanto territorial quanto ideológica, se diferenciou dos modos portugueses. Os espanhóis foram mais cruéis em suas investidas. Mais de quinhentos templos e nada menos que vinte mil ídolos indígenas foram destruídos. Nos locais onde existia um templo pagão (principalmente Asteca) era erguida uma igreja cristã. Os portugueses investiram mais na busca da compreensão humana, já que os índios foram reconhecidos como portadores de almas e a catequese era uma forma de expansão do catolicismo. Ademais, os índios eram uma força de trabalho útil as pretensões de produzir riquezas dentro dos “cercamentos jesuítas” para serem enviadas a Europa sem levantar suspeitas aos inspetores da coroa e aos alfandegários.
Mas quem era esse Deus que os Europeus falavam? Se uma hora ele enviara seu Filho para salvar a humanidade e libertá-los do pecado da idolatria e feitiçaria, das obras do Diabo, então por que os seus representantes escravizavam e matavam em nome dele? Não poderia eles viverem naturalmente com sua adoração? Não! Sua forma de vida foi classificada pelos civilizados como idolatria e feitiçaria. Precisavam ser libertos do diabo.
Os espanhóis desembarcaram em “suas terras” – como no Peru – a figura da bruxa. Os ameríndios andinos desconheciam a existência do fato que uma mulher manipular a natureza (ervas, plantas, orações pagãs, etc.) era está possuída pelo mal. Aliás, a dualidade mística metafísica dos índios pré-colombianos não se assemelhava com a dualidade exposta por seus algozes. Para os indígenas, os deuses eram seus protetores, e as forças cósmicas não se classificavam por bondade ou maldade: todos contribuíam para o bem estar das tribos. Seus pajés – chamados feiticeiros pelos cristãos – eram os curandeiros e representantes das divindades; eras seus oráculos, os sacerdotes que indicavas o caminho da guerra e o tempo de plantar. Era o que espiritualmente garantia a satisfação das divindades por meio de sacrifícios e intercessões junto ao mar, as rochas, a lua, aos raios, ao sol, a natureza enfim.  Na colônia portuguesa, padres se apoderavam sexualmente de mulheres argumentando que, se elas falassem alguma coisa para seus familiares o exorcismo de nada valeria, pois o Diabo voltaria com mais demônios e perturbaria mais ainda, tanto a vitima quanto os demais familiares.  Acaso fosse denunciado o atentado sexual, a mulher seria acusada de “bruxa”.
 A complexidade da religião cristã frente a forma de adoração indígena criou um impacto nas duas sociedades. Enquanto a forma do novo mundo era pouco conhecida dos europeus, a forma européia tinha um conhecimento não evangelizado dogmático ou catequético para os índios: Eles conheciam a Deus de outra forma. Mas a pregação européia criou um medo novo nos índios, o medo do Diabo e do inferno. Isso resultou em perseguição aos missionários, pois eram proibidos de falar no seu Deus e, conseqüentemente no seu adversário.
Atualmente a demonologia é também estudada no campo cientifico; a modernidade cientifica investigativa busca explicações para os acontecimentos paranormais. O Diabo não é visto em sua totalidade – por quem até os trouxe à América – como um ser maligno, mas como representação do homem explorar seu medo, seus traumas ou sua ira. Seria sua personalidade retraída, sua parte reprimida que o faz agir de forma surpreendentemente má. 
Mas o Diabo também se tornou uma figura mercantilizada. Igrejas propagam a liberdade de suas obras não em busca da libertação do homem, mas como forma de arrebanhar adeptos; o cinema protagoniza o mesmo em suas diversas facetas. Na América do Norte se tornou “Pop Star” sendo reverenciado em festas como Halloween ou dia das bruxas – festa introduzida pelos celtas (irlandeses) no século XIX. Na cultura, em Saramago (escritor português), por exemplo, ele se defende diante de Jesus e se diz vítima: “(...) limitei-me a tomar para mim o que Deus não quis a carne com sua alegria e sua tristeza, a juventude e a velhice, a frescura e a podridão, mas não é verdade que o medo seja uma arma minha não me lembro de ter sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que nelas há sempre.” [1] Mas vale salientar que a figura do Diabo faz parte desde as mais remotas religiões politeístas. Essa figura não desaparece no monoteísmo. Tanto na Bíblia Judaica ou Cristã Ele é a serpente que engana o homem e aflige Cristo no deserto. Embora a ciência, a teologia ou a psicologia tenha suas variadas formas de concebê-lo, é no imaginário popular que ele se expande, e sendo incauto ou não, o homem sempre é a vítima de suas investidas. Isso resulta que a demonologia existente nas Américas é o ajuntamento da diversidade do imaginário europeu, tanto cristão ou não, produzindo uma forma de demonologia que absorve características indígenas e africanas (escravos), como também asiáticas, rica em crendices, superstições, símbolos, representantes, escritos, cultura e religiões.   
Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
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- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
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Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br        
Fontes:
SARAMAGO, José – O Evangelho Segundo Jesus Cristo; Companhia das Letras; São Paulo; 1991.
SOUZA, Laura de Melo e – Inferno Atlântico: Demonologia e colonização Séculos XVI-XVIII ; Companhia das Letras; SP; 1993.


[1] Saramago, p 384.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Graça, Tão Somente Graça.

Roberto Albuquerque dos Santos
 Dentre as mais variadas intra-relações entre Deus e o homem, uma das menos compreendidas, porém supra difundida é a que se refere à Graça divina. Por mais que se tente definir o termo, a simplificação do mesmo foi absorvida por séculos às mais diferentes sociedades como o favor imerecido de Deus aos homens. Embora seja simplista, a definição é satisfatória. Mesmo que a Graça não esteja vinculada a uma – ou se quer necessite de uma – definição, essa manifestação do amor divino se resume no ato da divindade agir em favor do adorador sem esperar recíproca.
Embora pareça que Deus requeira do homem obediência por agir em seu favor, esse ponto de vista é construído a partir da mente humana. A política da compensação não se aplica à complacência de Deus, ou seja, Deus não demonstra compaixão por o homem ter realizado algo para alcançar tal dom; a manifestação da Graça é puramente arbitrária; Deus não é condicionado (pois seria passivo a uma ação) a agir em favor do homem por ter recebido dele uma oferta. As ofertas descritas no Pentateuco serviam (servem) para disciplinar o homem no seu relacionamento com a divindade; mostravam (mostram) para os seres humanos sua categoria de criaturas, embora débis, preservados por um Deus criador; demonstravam (demonstram) o confronto entre a santidade divina e o pecado humano, no entanto, obstante a tal situação, a humanidade não se encontra excluída do amor divino.      
Enquanto a Teologia classifica os atributos de Deus, sua pessoa, etc, não consegue inserir, no entanto, dentro de suas prerrogativas, à ação divina de forma plena – pois Deus não se coaduna com o que dele se escreve, ou seja, teorias não o limitam –, mesmo levando em conta sua espontaneidade em agir. Enquanto os escritos rabínicos, já desde os tempos de Esdras, classificam as ações religiosas como vontade de Deus, escritos bíblicos – embora com forte influência de um “puritanismo religioso” com tons de “santidade” – denotam uma sentença profética abarcadora a todas a gentes. Assim, tanto a Teologia – desde a Patrística até a Contemporânea – e os escritos das mais diversas tradições judaicas, insurgem em classificar e atribuir regras a uma virtude que compete à natureza divina.
Mesmo que os estudos produzidos sobre a Graça de Deus tenham o intuito de edificar, não foge muito a um tom dogmático, tendencioso, preconceituoso, intolerante e possuidor de juízo de valor. O que se constrói acerca da Graça é um produto da interpretação do que se entende por Graça. Por mais que se ovacione a Graça divina como infindável, indelével, etc, em determinados credos religiosos ou em cartilhas dogmáticas de denominações, ou mesmo se introduza aos ensinos teológicos definições ao termo, no entanto, na prática, a mesma Graça – ensinada infindável – torna-se refém do interesse a quem a queira outorgar (por quem se diz representante da divindade). Como conseqüência, o perdão é uma prerrogativa para poucos.

Esse padrão de posse da benevolência divina por parte do oficial da religião é desde os mais primitivos tipos de manifestação cultual. Isso pode ser visto tanto entre os beduínos do deserto, entre os bárbaros na Europa e até entre os índios nas Américas (o tóten, por exemplo). Destarte, se esse padrão configurou-se entre formas politeístas de crença não fugiu ao sistema monoteísta de adoração. A Graça em todos esses sistemas ainda é uma prerrogativa dos deuses manifestada ao algoz diante de seu próximo. Pode ser manifestada de forma direta (entre os índios se manifestada, principalmente, pela natureza) ou indireta. Quando indireta, ou seja, quando necessária ser efetuada pelo “profeta” ou “sacerdote”, que são representantes (oráculos) da divindade, o julgamento para anunciação da penalidade ao acusado – ser ou não perdoado – era (ou é) influenciado pelo jogo de interesses advindo da cúpula religiosa e não em interesse a quem representavam (os deuses).
Esse tipo de julgamento não foi (e não é) exclusividade de comunidades bárbaras, silvícolas ou politeístas. O monoteísmo judaico apresenta muitos exemplos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O Sacerdote tinha o poder de abençoar ou amaldiçoar a quem lhe aprouvesse, bastava o homem não seguir a Lei do Senhor. Obstante a mesma Lei orientar o amor entre os homens, os mesmos se apoderavam mais dos “parágrafos” que tratavam da relação entre “culpa e dívida”; “o que é meu por direito”; “como ter vantagem ante o próximo”; “como se vingar pelo sangue derramado”, etc. A perspectiva divina ao promulgar a Lei por intermédio de Moisés não propunha tal esfera de comportamento para os homens. Esse comportamento pode ser visto com mais clareza não apenas entre homem perante homem, mas entre homem perante a divindade. Os judeus requerem para si vingança da parte de Deus contra seus inimigos; há Salmos imprecatórios onde a Graça é excluída totalmente da relação ofensor/ofendido (ver Salmo 109); Jonas se esquiva, foge desobedece a Deus por não querer ir a Nínive anunciar a catástrofe e possível perdão por arrependimento e se entristece a tal ponto de ficar enfermo por Deus cancelar o mal que havia predito aos ninivitas; etc. No Novo Testamento o exemplo mais clássico é o caso da mulher apanhada em adultério e levada perante Jesus, não para ser julgada por Ele, mas para se saber o parecer que Ele daria pela Lei acerca do assunto. O parecer de Jesus foi tão significativo que a mulher foi julgada ali mesmo; foi condenada pelo seu ato perante a Lei, mas foi absolvida perante os atos dos homens que a condenaram ante a mesma Lei (“Quem nunca pecou...”). A Graça divina se manifestou naquele momento em demonstrar aos homens que todos pecaram e que diante uns dos outros o comportamento ideal perante uma Lei que lhes condenavam era se perdoarem, já que o cumprimento da Lei é o amor.
Ainda hoje essa prerrogativa não encontra ênfase no relacionamento entre os seres humanos. Ademais, quando vista apenas como uma Doutrina Teológica ou uma Dispensação que efeito tem? A Graça de Deus não se confina a uma Dispensação. Desde o Éden que a vemos. Ela se manifestou aos homens pré-diluvianos e se manifesta até hoje. Pensar que vivemos o tempo da plenitude da Graça é pensar em um Deus que tem medidas para dispensar perdão e, se assim for, estaremos concebendo um Deus que tem variações com relação ao tempo e com relação às atitudes dos homens. A Graça divina não se atém à cumplicidade do homem com Ele. O Apóstolo Paulo registra que Cristo nos amou desde o tempo que o homem estava no estado de constante pecado, ou seja, alienado de Deus. Portanto, Deus não defere Graça ao homem por ele ter alcançado um grau de satisfação diante dele. Não! A Graça de Deus se manifesta sem medidas aos homens desde a criação dos mesmos, independente de quem ele seja ou o que faça. Não excluo com isso a justiça merecida à humanidade. Biblicamente todos serão julgados segundo suas obras. E essa é a importância do entendimento da Graça, desse favor por parte da divindade ao pecador. Ela antecede a justiça em busca do homem. O escritor Joanino expressa em seu primeiro capitulo (Evangelho) que Cristo era “... cheio de Graça e de Verdade” (Jo 1.14). A Graça está posta antes da Verdade. A Verdade é a justiça; é o campo de atuação onde não há misericórdia; onde não há meio termo; é onde o perdão para o condenado é inacessível, ou seja, para ele só resta a sentença condenatória. É por isso que a intra-relação entre os homens precisa ser de perdão, de graça entre si, pois Jesus exclamou que o homem é perdoado na medida que perdoa (intra-relação pessoal), ou seja, é Graça (divina) sobre graça (humana). Enquanto a graça do homem para com o homem se estabelece pelo vinculo do perdão, a Graça divina ultrapassa essa expectativa. Fosse o contrário, estaria ela submetida a vínculos para ser manifestada. Por ser arbitrária, ela é concedida por Deus ao homem tão pura e simplesmente por amor. Assim, o homem por ser criação divina o recíproca com adoração, enquanto por ter recebido a Lei sua atitude é condicionada à obediência, pois a Lei pede obediência para ser cumprida. A Graça, no entanto, gera no homem uma atitude de agradecimento para com Deus. Essa cumplicidade é conhecida como comunhão, ou seja, o adorador em paz com a divindade através do vinculo da Graça. Esse empreendimento da divindade em prol do adorador não exonerou a Justiça, mas cumpriu suas exigências quanto à prerrogativa legal justificando o homem através de sua fé não por algo que ele (o homem) possa ofertar para ser aceito, mas através do sacrifício do Verbo divino.  
Assim, não necessitando do favor humano para se estabelecer um vinculo comunal, nem tampouco esperando do mesmo dotes de qualquer natureza que possa ser dado em troca pelo favor concedido, Deus proporcionou ao homem ser alcançado por Sua Graça, e tão somente por Graça, pode o homem se reconciliar com seu criador, preservador e salvador.     

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br