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sábado, 19 de fevereiro de 2011

O IMAGINÁRIO DEMONOLÓGICO EUROPEU NAS AMÉRICAS

Roberto Albuquerque dos Santos

Um dos campos de estudos onde a metafísica é fundamental é a demonologia. O assunto divide os homens em qualquer estratificação da pirâmide social, cultural, religiosa, teológica e, muito mais na esfera do imaginário popular.
Advinda como um desenvolvimento aprofundado em estudo por Agostinho, o demônio ganha uma multiformidade e estatuto revestida de concretização, ou seja, se materializa para ser dissecado no campo teológico e não apenas uma personificação do mau.
Inúmeras obras foram desenvolvidas entre os séculos XVI e XVIII sobre o tema. As perseguições as manipuladoras de “dons mágicos” (bruxas, feiticeiros e outros), não têm a exclusividade do ataque dos escritores: as críticas também se objetivam quanto à presença do demônio como parte integrante dos sermões religiosos. Enquanto os “naturalistas” eram condenados por obrarem milagres em nome do Diabo, a Igreja o usava com suas obras para supliciar seus fiéis em uma analogia onde as obras contrárias a vontade de Deus (entenda-se o Rei e a Igreja) na terra eram atribuídas como obra maligna. O assunto estende-se no campo religioso, teológico e histórico, mas em síntese, a perseguição era por quem manifestasse aversão à ideologia dogmática da Igreja.
O novo mundo aprece no cenário mundial com a Europa em meio a uma reforma interna das estruturas litúrgicas e kerigmáticas de uma Igreja abalada por um movimento renascentista e iluminista, onde a afirmação carece de investigação e a “fé” é encarada como um artifício de manipulação às classes desprivilegiadas de conhecimento cientifica e literário. A ordem Jesuítica, a venda de indulgências e o Concílio de Trento surgem para fazer frente ao movimento conhecido como Reforma Protestante.
Em busca de novos adeptos, a Igreja lança missões às novas terras descobertas que em seus alforjes trouxeram – além da pregação denominacional – a figura estereotipada do Diabo inspirada no mito grego de Hades e do romano, Plutão. Peças teatrais que desde os séculos XII e XIII se espalharam entre o povo, os nobre e os clérigos – onde a Divina Comédia de Dante Alighieri retratava o inferno com detalhes – criou uma espécie de mundo paralelo entre o mundo material e o metafísico; a icnografia se estabeleceu no século XIV no mito de Pã (sátiro ou fauno), deus grego com chifres, rabo e asas, imagem que se estabeleceu no imaginário facilmente até hoje. Mas essa “pregação” aos habitantes do novo mundo – denominados religiosamente de pagãos – não foi uma exclusividade da Igreja. Colonizadores e conquistadores também se dirigiam aos índios como bestas infernais e sem espíritos; animais com forma humana. A ferocidade dos índios, sua ignorância acerca do Deus Cristão, sua cultura e antropofagia, foram argumentos para classificarem os mesmos como invólucros do Diabo. No entanto, o Diabo era uma figura inexistente, tanto no norte quanto no sul das Américas: foi “trazido” pelos Europeus.
A partir da absorção do panorama idolátrico e totalmente alheio ao europeu, os mesmo procuram realizar uma catequese radical, onde livros e templos foram queimados; altares destruídos, culturas dizimadas, povos destruídos ou escravizados. No entanto, é preciso esclarecer que a conquista espanhola, tanto territorial quanto ideológica, se diferenciou dos modos portugueses. Os espanhóis foram mais cruéis em suas investidas. Mais de quinhentos templos e nada menos que vinte mil ídolos indígenas foram destruídos. Nos locais onde existia um templo pagão (principalmente Asteca) era erguida uma igreja cristã. Os portugueses investiram mais na busca da compreensão humana, já que os índios foram reconhecidos como portadores de almas e a catequese era uma forma de expansão do catolicismo. Ademais, os índios eram uma força de trabalho útil as pretensões de produzir riquezas dentro dos “cercamentos jesuítas” para serem enviadas a Europa sem levantar suspeitas aos inspetores da coroa e aos alfandegários.
Mas quem era esse Deus que os Europeus falavam? Se uma hora ele enviara seu Filho para salvar a humanidade e libertá-los do pecado da idolatria e feitiçaria, das obras do Diabo, então por que os seus representantes escravizavam e matavam em nome dele? Não poderia eles viverem naturalmente com sua adoração? Não! Sua forma de vida foi classificada pelos civilizados como idolatria e feitiçaria. Precisavam ser libertos do diabo.
Os espanhóis desembarcaram em “suas terras” – como no Peru – a figura da bruxa. Os ameríndios andinos desconheciam a existência do fato que uma mulher manipular a natureza (ervas, plantas, orações pagãs, etc.) era está possuída pelo mal. Aliás, a dualidade mística metafísica dos índios pré-colombianos não se assemelhava com a dualidade exposta por seus algozes. Para os indígenas, os deuses eram seus protetores, e as forças cósmicas não se classificavam por bondade ou maldade: todos contribuíam para o bem estar das tribos. Seus pajés – chamados feiticeiros pelos cristãos – eram os curandeiros e representantes das divindades; eras seus oráculos, os sacerdotes que indicavas o caminho da guerra e o tempo de plantar. Era o que espiritualmente garantia a satisfação das divindades por meio de sacrifícios e intercessões junto ao mar, as rochas, a lua, aos raios, ao sol, a natureza enfim.  Na colônia portuguesa, padres se apoderavam sexualmente de mulheres argumentando que, se elas falassem alguma coisa para seus familiares o exorcismo de nada valeria, pois o Diabo voltaria com mais demônios e perturbaria mais ainda, tanto a vitima quanto os demais familiares.  Acaso fosse denunciado o atentado sexual, a mulher seria acusada de “bruxa”.
 A complexidade da religião cristã frente a forma de adoração indígena criou um impacto nas duas sociedades. Enquanto a forma do novo mundo era pouco conhecida dos europeus, a forma européia tinha um conhecimento não evangelizado dogmático ou catequético para os índios: Eles conheciam a Deus de outra forma. Mas a pregação européia criou um medo novo nos índios, o medo do Diabo e do inferno. Isso resultou em perseguição aos missionários, pois eram proibidos de falar no seu Deus e, conseqüentemente no seu adversário.
Atualmente a demonologia é também estudada no campo cientifico; a modernidade cientifica investigativa busca explicações para os acontecimentos paranormais. O Diabo não é visto em sua totalidade – por quem até os trouxe à América – como um ser maligno, mas como representação do homem explorar seu medo, seus traumas ou sua ira. Seria sua personalidade retraída, sua parte reprimida que o faz agir de forma surpreendentemente má. 
Mas o Diabo também se tornou uma figura mercantilizada. Igrejas propagam a liberdade de suas obras não em busca da libertação do homem, mas como forma de arrebanhar adeptos; o cinema protagoniza o mesmo em suas diversas facetas. Na América do Norte se tornou “Pop Star” sendo reverenciado em festas como Halloween ou dia das bruxas – festa introduzida pelos celtas (irlandeses) no século XIX. Na cultura, em Saramago (escritor português), por exemplo, ele se defende diante de Jesus e se diz vítima: “(...) limitei-me a tomar para mim o que Deus não quis a carne com sua alegria e sua tristeza, a juventude e a velhice, a frescura e a podridão, mas não é verdade que o medo seja uma arma minha não me lembro de ter sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que nelas há sempre.” [1] Mas vale salientar que a figura do Diabo faz parte desde as mais remotas religiões politeístas. Essa figura não desaparece no monoteísmo. Tanto na Bíblia Judaica ou Cristã Ele é a serpente que engana o homem e aflige Cristo no deserto. Embora a ciência, a teologia ou a psicologia tenha suas variadas formas de concebê-lo, é no imaginário popular que ele se expande, e sendo incauto ou não, o homem sempre é a vítima de suas investidas. Isso resulta que a demonologia existente nas Américas é o ajuntamento da diversidade do imaginário europeu, tanto cristão ou não, produzindo uma forma de demonologia que absorve características indígenas e africanas (escravos), como também asiáticas, rica em crendices, superstições, símbolos, representantes, escritos, cultura e religiões.   
Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br        
Fontes:
SARAMAGO, José – O Evangelho Segundo Jesus Cristo; Companhia das Letras; São Paulo; 1991.
SOUZA, Laura de Melo e – Inferno Atlântico: Demonologia e colonização Séculos XVI-XVIII ; Companhia das Letras; SP; 1993.


[1] Saramago, p 384.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Graça, Tão Somente Graça.

Roberto Albuquerque dos Santos
 Dentre as mais variadas intra-relações entre Deus e o homem, uma das menos compreendidas, porém supra difundida é a que se refere à Graça divina. Por mais que se tente definir o termo, a simplificação do mesmo foi absorvida por séculos às mais diferentes sociedades como o favor imerecido de Deus aos homens. Embora seja simplista, a definição é satisfatória. Mesmo que a Graça não esteja vinculada a uma – ou se quer necessite de uma – definição, essa manifestação do amor divino se resume no ato da divindade agir em favor do adorador sem esperar recíproca.
Embora pareça que Deus requeira do homem obediência por agir em seu favor, esse ponto de vista é construído a partir da mente humana. A política da compensação não se aplica à complacência de Deus, ou seja, Deus não demonstra compaixão por o homem ter realizado algo para alcançar tal dom; a manifestação da Graça é puramente arbitrária; Deus não é condicionado (pois seria passivo a uma ação) a agir em favor do homem por ter recebido dele uma oferta. As ofertas descritas no Pentateuco serviam (servem) para disciplinar o homem no seu relacionamento com a divindade; mostravam (mostram) para os seres humanos sua categoria de criaturas, embora débis, preservados por um Deus criador; demonstravam (demonstram) o confronto entre a santidade divina e o pecado humano, no entanto, obstante a tal situação, a humanidade não se encontra excluída do amor divino.      
Enquanto a Teologia classifica os atributos de Deus, sua pessoa, etc, não consegue inserir, no entanto, dentro de suas prerrogativas, à ação divina de forma plena – pois Deus não se coaduna com o que dele se escreve, ou seja, teorias não o limitam –, mesmo levando em conta sua espontaneidade em agir. Enquanto os escritos rabínicos, já desde os tempos de Esdras, classificam as ações religiosas como vontade de Deus, escritos bíblicos – embora com forte influência de um “puritanismo religioso” com tons de “santidade” – denotam uma sentença profética abarcadora a todas a gentes. Assim, tanto a Teologia – desde a Patrística até a Contemporânea – e os escritos das mais diversas tradições judaicas, insurgem em classificar e atribuir regras a uma virtude que compete à natureza divina.
Mesmo que os estudos produzidos sobre a Graça de Deus tenham o intuito de edificar, não foge muito a um tom dogmático, tendencioso, preconceituoso, intolerante e possuidor de juízo de valor. O que se constrói acerca da Graça é um produto da interpretação do que se entende por Graça. Por mais que se ovacione a Graça divina como infindável, indelével, etc, em determinados credos religiosos ou em cartilhas dogmáticas de denominações, ou mesmo se introduza aos ensinos teológicos definições ao termo, no entanto, na prática, a mesma Graça – ensinada infindável – torna-se refém do interesse a quem a queira outorgar (por quem se diz representante da divindade). Como conseqüência, o perdão é uma prerrogativa para poucos.

Esse padrão de posse da benevolência divina por parte do oficial da religião é desde os mais primitivos tipos de manifestação cultual. Isso pode ser visto tanto entre os beduínos do deserto, entre os bárbaros na Europa e até entre os índios nas Américas (o tóten, por exemplo). Destarte, se esse padrão configurou-se entre formas politeístas de crença não fugiu ao sistema monoteísta de adoração. A Graça em todos esses sistemas ainda é uma prerrogativa dos deuses manifestada ao algoz diante de seu próximo. Pode ser manifestada de forma direta (entre os índios se manifestada, principalmente, pela natureza) ou indireta. Quando indireta, ou seja, quando necessária ser efetuada pelo “profeta” ou “sacerdote”, que são representantes (oráculos) da divindade, o julgamento para anunciação da penalidade ao acusado – ser ou não perdoado – era (ou é) influenciado pelo jogo de interesses advindo da cúpula religiosa e não em interesse a quem representavam (os deuses).
Esse tipo de julgamento não foi (e não é) exclusividade de comunidades bárbaras, silvícolas ou politeístas. O monoteísmo judaico apresenta muitos exemplos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O Sacerdote tinha o poder de abençoar ou amaldiçoar a quem lhe aprouvesse, bastava o homem não seguir a Lei do Senhor. Obstante a mesma Lei orientar o amor entre os homens, os mesmos se apoderavam mais dos “parágrafos” que tratavam da relação entre “culpa e dívida”; “o que é meu por direito”; “como ter vantagem ante o próximo”; “como se vingar pelo sangue derramado”, etc. A perspectiva divina ao promulgar a Lei por intermédio de Moisés não propunha tal esfera de comportamento para os homens. Esse comportamento pode ser visto com mais clareza não apenas entre homem perante homem, mas entre homem perante a divindade. Os judeus requerem para si vingança da parte de Deus contra seus inimigos; há Salmos imprecatórios onde a Graça é excluída totalmente da relação ofensor/ofendido (ver Salmo 109); Jonas se esquiva, foge desobedece a Deus por não querer ir a Nínive anunciar a catástrofe e possível perdão por arrependimento e se entristece a tal ponto de ficar enfermo por Deus cancelar o mal que havia predito aos ninivitas; etc. No Novo Testamento o exemplo mais clássico é o caso da mulher apanhada em adultério e levada perante Jesus, não para ser julgada por Ele, mas para se saber o parecer que Ele daria pela Lei acerca do assunto. O parecer de Jesus foi tão significativo que a mulher foi julgada ali mesmo; foi condenada pelo seu ato perante a Lei, mas foi absolvida perante os atos dos homens que a condenaram ante a mesma Lei (“Quem nunca pecou...”). A Graça divina se manifestou naquele momento em demonstrar aos homens que todos pecaram e que diante uns dos outros o comportamento ideal perante uma Lei que lhes condenavam era se perdoarem, já que o cumprimento da Lei é o amor.
Ainda hoje essa prerrogativa não encontra ênfase no relacionamento entre os seres humanos. Ademais, quando vista apenas como uma Doutrina Teológica ou uma Dispensação que efeito tem? A Graça de Deus não se confina a uma Dispensação. Desde o Éden que a vemos. Ela se manifestou aos homens pré-diluvianos e se manifesta até hoje. Pensar que vivemos o tempo da plenitude da Graça é pensar em um Deus que tem medidas para dispensar perdão e, se assim for, estaremos concebendo um Deus que tem variações com relação ao tempo e com relação às atitudes dos homens. A Graça divina não se atém à cumplicidade do homem com Ele. O Apóstolo Paulo registra que Cristo nos amou desde o tempo que o homem estava no estado de constante pecado, ou seja, alienado de Deus. Portanto, Deus não defere Graça ao homem por ele ter alcançado um grau de satisfação diante dele. Não! A Graça de Deus se manifesta sem medidas aos homens desde a criação dos mesmos, independente de quem ele seja ou o que faça. Não excluo com isso a justiça merecida à humanidade. Biblicamente todos serão julgados segundo suas obras. E essa é a importância do entendimento da Graça, desse favor por parte da divindade ao pecador. Ela antecede a justiça em busca do homem. O escritor Joanino expressa em seu primeiro capitulo (Evangelho) que Cristo era “... cheio de Graça e de Verdade” (Jo 1.14). A Graça está posta antes da Verdade. A Verdade é a justiça; é o campo de atuação onde não há misericórdia; onde não há meio termo; é onde o perdão para o condenado é inacessível, ou seja, para ele só resta a sentença condenatória. É por isso que a intra-relação entre os homens precisa ser de perdão, de graça entre si, pois Jesus exclamou que o homem é perdoado na medida que perdoa (intra-relação pessoal), ou seja, é Graça (divina) sobre graça (humana). Enquanto a graça do homem para com o homem se estabelece pelo vinculo do perdão, a Graça divina ultrapassa essa expectativa. Fosse o contrário, estaria ela submetida a vínculos para ser manifestada. Por ser arbitrária, ela é concedida por Deus ao homem tão pura e simplesmente por amor. Assim, o homem por ser criação divina o recíproca com adoração, enquanto por ter recebido a Lei sua atitude é condicionada à obediência, pois a Lei pede obediência para ser cumprida. A Graça, no entanto, gera no homem uma atitude de agradecimento para com Deus. Essa cumplicidade é conhecida como comunhão, ou seja, o adorador em paz com a divindade através do vinculo da Graça. Esse empreendimento da divindade em prol do adorador não exonerou a Justiça, mas cumpriu suas exigências quanto à prerrogativa legal justificando o homem através de sua fé não por algo que ele (o homem) possa ofertar para ser aceito, mas através do sacrifício do Verbo divino.  
Assim, não necessitando do favor humano para se estabelecer um vinculo comunal, nem tampouco esperando do mesmo dotes de qualquer natureza que possa ser dado em troca pelo favor concedido, Deus proporcionou ao homem ser alcançado por Sua Graça, e tão somente por Graça, pode o homem se reconciliar com seu criador, preservador e salvador.     

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br
                        

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Jacques Louis David: Arte e Crítica na Tela

Roberto Albuquerque dos Santos

O texto abaixo não tem o objetivo de ser uma análise biográfica ou completa da vida e obra de David; apenas uma análise icnográfica sintética de algumas de suas obras em relação ao momento político da França, em seu tempo.

Auto Retrato
Jacques Louis David nasceu na França em 30 de agosto de 1748 e morreu em 29 de dezembro de 1825 em Bruxelas. Pintor claramente neoclassicista; um dos mais importantes de sua época, assim, foi o pintor oficial da Corte e do Imperador Bonaparte.
De família próspera, estudou arte com François Boucher (Rococó) – parente distante – que o indicou a um classicista por nome Joseph-Marie Vien. Após fracassar em quatro tentativas ao prêmio de Roma, ingressou naquela escola, onde obteve inúmeros sucessos.  

Juramento dos Horácios

Uma de suas primeiras obras primas foi o “Juramento dos Horácios”, cujo trabalho se caracterizou pelo ambiente dramático e manifestação dos ideais neoclassicista. O ato de saudação romana ante a presença do pai e das mulheres (representando a família – imagem feminina demonstrando a afetividade, emoção e dor, sentimentalismo, à direita do quadro, sentadas, chorando; enquanto os personagens masculinos são mostrados à esquerda, em pé, inflexíveis, determinados) forjava a idéia que os interesses públicos estão acima dos interesses próprios, privados ou familiares. Embora o quadro tenha sido feito cinco anos antes da Revolução Francesa, apontava para os ideais republicanos, um tema que não se afastaria por muito tempo.  Este quadro levantou opiniões furiosas a seu respeito.

A Morte de Sócrates

Outra obra de grande destaque foi “A morte de Sócrates” - utilizado como forma de comunicação com os revolucionários franceses; transmite uma clara mensagem de esperança e de necessidade de luta aos iluministas; a evocação do tema em 1787 é considerada um convite para que todos os franceses questionassem a condição privilegiada do primeiro e segundo Estado. A mensagem é que por mais que demore para que os objetivos sejam alcançados, as idéias, que são eternas a partir do momento em que são registradas, conduzirão para a liberdade. A mensagem central é que não se deve temer a morte quando se tem convicção dos ideais defendidos; os discípulos ao lado extremo chorando demonstra que as emoções (tristezas) devem ser deixadas em segundo plano. Pela imagem do quadro, não importam as mentiras e injustiças que resultasse do confronto entre o iluminismo e o velho regime, o importante era o ideal de um mundo melhor sem um monarca absolutista, sem a aristocracia parasitária e sem o clero sacralizador de ambos através do catolicismo. Esses ideais teriam que ser levados até as últimas conseqüências.


Marat Assassinado

Com a obra “Marat Assassinado”, David dialoga com obras sobre o martírio de Cristo (Pietá de Giovani Bellini e a Pietá de Michelangelo). David procura retratar o personagem e não a realidade fidedigna.

  1. Semelhanças - posição do corpo na cena, gestos, ferimentos, elementos de decoração, etc. As três obras apresentam semelhanças em: os corpos sem vida e despencados. Marat, preso pelo braço na banheira; os outros Cristos estão no colo da virgem Maria. Na mão de Marat um escrito em vez das chagas; um ferimento acima do peito; um turbante em Marat faz referência à coroa de espinhos; Marat morto procura dar uma sensação de perda e de eternidade, isso é mostrado em uma inscrição no caixote "à Marat" que rompe com o efêmero e inclui na eternidade o personagem cívico. Outros pontos comuns da obra são a limpeza estética dos corpos apesar do sofrimento de ambos.
  2. Aproximações biográficas - estão mais relacionadas às causas da morte. Cristo morreu pelo que falou; Marat pelo que escreveu. Cristo não pretendia fazer de suas idéias um discurso político, seu caráter era religioso; Marat era eminentemente político e voltado para a defesa da Revolução, atuou como porta voz da multidão, enquanto Cristo não se apresentava como líder político.
  3. Uso da Iconografia católica - busca por elementos para a fabricação dos heróis revolucionários. as iconografias que estavam presentes no imaginário popular, foram apropriados pelo artista revolucionário e utilizados para a construção desses heróis revolucionários.
 Essas semelhanças têm por finalidade apresentar Marat como um “novo Jesus Cristo” – Sacrificado por um objetivo. Essas atitudes tentaram buscar a unidade da convenção montanhesa que estavam divididas com a eliminação de Herbert e Danton.
O Rapto das Sabinas

“O Rapto das Sabinas” retrata primórdios da história de Roma, quando se confrontou com os sabinos por causa de mulheres. Para David, os conflitos vividos por romanos e sabinos muito se assemelhavam aos vividos na França, que estava totalmente desorganizada. Os revolucionários que em principio estavam unidos, agora estavam em conflito. A ação de Hercília intervindo no combate entre Tácio e Rômulo impedindo que ambos se mantivessem, é uma alusão a proposta de pacificação da sociedade francesa, pondo terminantemente, um fim nas lutas políticas revolucionárias. Neste quadro, diferente dos demais, as mulheres – até então – passivas, emocionais em extremo, desequilibradas, saem de seu espaço privado e irrompem na cena pública.
O Estado é representado na figura da loba (escudo de Rômulo); mesmo entre os guerreiros, Hercília é mostrada menor que eles, não impedindo que cruzem os seus olhares. Isso demonstra que o Estado não está justaposto aos interesses individuais, ele está sendo colocado de lado. Ao se olharem, Tácio e Rômulo reconhecem os laços familiares que se formaram. Esse quadro difere do quadro O Juramento dos Horácios (ver acima), onde o olhar entre pai e filhos não é possível, pois entre eles existe algo mais importante, ou seja, o Estado representado pelas espadas. O mesmo detalhe pode ser visto no quadro Brutus (abaixo).

Brutus
Quando seus filhos chegam (mortos) em casa, Brutus também não olha para eles. Entre eles é vista uma estátua tendo o símbolo da fundação de Roma. Essas obras evidenciam de forma clara que o interesse público está acima do privado. Nas Sabinas, David propõe que o Estado naquele momento fique em segundo plano e que seus interesses não seja colocado em primeiro lugar em prol da harmonia do povo francês, que estava cansado de tantas lutas. Para David, era necessário se colocar as diferenças e conflitos de lado, se olharem e se reconciliarem como membro de uma mesma família. O quadro faz um apelo ao uso racional da emoção e o não desprezo da emoção pela razão. Para David, o ódio gerado pela revolução deveria ter fim. No quadro, a presença das crianças são símbolos dos frutos da revolução, e esses sim, deveriam ser preservados, pois se os franceses continuassem em luta, pouca coisa ou nada restaria da revolução.
Outra interpretação coloca na ação de Hercília a figura de Napoleão, que seria o responsável pela paz na França.


Napoleão em seu Estúdio

David pintou algumas mensagens retratando o Imperador Napoleão. Na obra “Napoleão em seu estúdio” - quadro não encomendado pelo Estado, mas por um escocês. Napoleão é retratado na madrugada, fato atestado pelo relógio (04h20min) e por uma vela quase consumida. Napoleão é retratado em seu uniforme, impecável, demonstrando que trabalhou toda a noite. O único deslize é um botão desabotoado no pulso esquerdo. O quadro quer passar a imagem de um homem infatigável, que dedicava o dia e a noite a nação francesa. Isso também é simbolizado na pena e no papel sobre a mesa. Perto de sua mão, sobre uma cadeira, está sua espada, o que dá uma idéia que, mesmo sendo imperador, Napoleão era um guerreiro pronto para a batalha. Na parede, uma águia simboliza a liberdade. A estátua de um leão traz a idéia de reinado, de vitória. O ambiente em que é retratado é luxuoso e de grande acervo literário além de elementos advindos de outros países. Esse cenário é para dignificar um homem como era Napoleão. Em pose digna e firme àquela hora da madrugada, Napoleão é mostrado como um homem que trabalhava para manter firme o império que conquistou.

Coroação (Sagração) de Napoleão

“A Sagração de Napoleão” tinha por finalidade promover o império. Fazia parte de um projeto de 3 quadros. Trata da coroação de Napoleão. David foi o responsável pela decoração da Igreja; queria que fosse ao ar livre, mas Napoleão recusou. Não queria ser coroado a vista do "populacho". Napoleão tinha atritos com a Igreja, a presença do Papa (convidado) visava firmar aliança. Em meio a cerimônia, Napoleão coroa a si mesmo, feito que realizou de costas para o Papa (a Igreja). Com isso queria passar a idéia que tudo que conseguira era fruto de seu esforço e trabalho. Que seu sucesso não advinha de Deus, mas dele mesmo, que seria um monarca diferente, esforçado e não dependente do clero. No quadro, o Papa aponta para Napoleão com ar de assustado, sem entender o que estava acontecendo, ou apontando para aquele que iria governar com grande sucesso. O quadro representa o homem que fez sua própria história (visão liberal); que todo resultado da revolução devia a um só homem.
Distribuição de Estandartes de Águias

“Distribuição de Estandartes de Águias” - Os personagens desse quadro contrastam em suas ações com os personagens do Juramento da Péla (abaixo) e o Juramento dos Horácios. Nesses quadros, os personagens fazem juramentos ao Estado; Nesse quadro, o juramento é feito a um único homem, assim, o individual toma o lugar do coletivo. As pretensões políticas de interesse da República já estavam se perdendo.

 Leônidas nas Termópilas

Leônidas nas Termópilas - Tem relação direta com os acontecimentos politicos-militares que marcaram aquele ano (1814). O quadro fala de força e resistência, além de coragem. Leônidas e Napoleão foram homens da guerra e perpetuaram sua história nesse campo. São figuras emblemáticas de revolução e ruptura. São símbolos de luta estimulados pelo patriotismo resistindo mesmo diante de inimigos mais numerosos e com poder militar superior.      

          Cruzando os Alpes (David)             Cruzando os Alpes (Delaroche)

Com a pintura “Travessia do Grande S. Bernardo” ou “Travessia dos Alpes” (mais conhecido) os elementos da natureza são descritos como o indicador (o vento) das vitórias apontando para frente o rabo e a crina do cavalo e o manto de Napoleão. Esse, por sua vez, olhando para o público, convida-os a participar de suas conquistas. Nas pedras, há o nome de 3 heróis: Aníbal, Carlos Magno e o próprio Napoleão.  Em contrapartida, Delaroche representa de forma antagônica o cenário de David em seu quadro. Desfigura o Imperador dando-lhe roupas acinzentadas (ao invés de coloridas e vias de David) que lhe servem apenas de proteção ao frio e não um uniforme de poderio militar. Sentado em uma montaria inferior ao destemido cavalo figurado por David.

                 
Appeles Pintando Campaspe

 Apelles Pintando Campaspe - Apelles foi considerado o maior pintor da antiguidade. Foi pintor oficial de Alexandre e seu pai Felipe. Requisitado para pintar a amante de Alexandre, Apelles se apaixona por ela; diante disso Alexandre cede-a a ele. No contexto da época, isso se relaciona com a idéia do contraste entre Napoleão e Alexandre, ou seja, Napoleão nunca havia reconhecido o valor de David, não o recompensando com um alto cargo no governo, pretendido pelo pintor. O quadro é um tipo de recado a Napoleão por David, pois o mesmo achava-se ressentido pelo não reconhecimento do imperador.

Após a queda de Napoleão, David foi considerado um dos inimigos da monarquia, porém foi anistiado por Luis XVIII que lhe ofereceu posição em seu reinado; David recusou tal oferta preferindo o exílio em Bruxelas, onde pintou outros quadros, vivendo até sua morte, por atropelamento sair de um teatro). 


Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Ateísmo dos que tem fé

Roberto Albuquerque dos Santos
Deus...um termo ou um sujeito? Realidade, ficção ou apenas uma tese filosófica ou teológica? Um objeto da religião ante os conceitos da ciência ou uma forma do homem espiritualizar a carência por um ser poderoso que o proteja? Deus, considerado amor e ao mesmo tempo considerado injusto pela mesma pessoa; querido em algum momento e negado em outro.
O salmista afirma que o néscio implica em seu coração que Deus não existe; mas o que levaria o néscio a pensar tal coisa? Seria esse néscio apenas um tolo ou alguém que no passar dos anos se viu em uma densa tendência a desacreditar em quem ensinaram a crer?  A religião cria concepções, infunde a fé, mas não a solidifica. Nessa perspectiva Deus fica a mercê de existir ou não a quem foi ensinado, já que o que solidifica a fé é a experiência, principalmente para o cético.
Quando alguém professa sua fé na existência de Deus não entende que a partir desse momento também concebeu o tempo da existência desse mesmo Deus em sua vida. Embora pareça estranha tal afirmativa, ela se manifesta e se testemunha a partir das circunstâncias vividas por cada pessoa. Não são poucos casos de pessoas que ora são crédulas e pouco depois desacreditam que Deus possa fazer algo por elas. Nessas circunstâncias Deus não existe. Não existe porque é considerado inoperante ou insensível; não se nega Deus apenas não acreditando na sua existência, mas negar sua presença é considerá-lo não existente. Por um lado isso se concebe a partir da impossibilidade Dele não estar em todo lugar ao mesmo tempo – onipresença; por outro lado, a eficácia da incredulidade abate o entusiasmo da fé e para um homem sem fé, Deus se torna passivo, sem forças, insensível, desnecessário. Essa é a perspectiva do néscio: ele não compreende que Deus não é o que fizeram ele conceber como Deus, nem tampouco o que ele (o néscio) queira que Ele (Deus) seja, mas que Deus em sua ontologia está desvinculado de qualquer produção humana, portanto Ele não necessita da fé ou da incredulidade do homem para ser o que é.
A busca dos gregos em compreender as causas dos fenômenos naturais propôs uma nova forma de encarar a relação entre a divindade e o adorador. Por muito tempo a reação da natureza foi encarada como uma resposta dos deuses acerca de diversos assuntos. A fartura sempre foi encarada como benção; a necessidade como maldição. Ora esses fatores desencadearam uma forma de se “medir” a benevolência divina para com uma pessoa, tribo e até povos. A complexidade de circunstâncias estruturou um conceito de relação que é conhecido como religião. A religião determina formas, meios, dogmas, estruturas, etc, de como o homem deve se relacionar com Deus. Não obstante, também concebe “Deus” à sua teologia. Da mesma forma que entre os politeístas havia/há quem não criam na intervenção de divindades no destino dos homens, há quem professe Deus e o negue quando as circunstâncias não lhe são favoráveis. É nesse enlace que o crente se comporta de forma semelhante ao cético; para ele Deus tem limite de existência. O néscio diz em seu coração (pensa) que Deus não existe; o que crer diz com seus lábios (fala): “Deus não existe aqui, não está comigo, estou só”! Assim, para ele, Deus não existe. Não existir não denota não ser real, denota em negação. Ao se negar a presença de Deus se nega a onipresença; ora, onipresença é um atributo divino e se não há onipresença não há Deus. Então, até onde Deus existe para o crédulo? Até o momento em que Ele é “útil”? Até o momento em que Ele se manifesta com “rapidez”? Não seria então o néscio um crédulo em estado de frustração perante o seu Deus? Quando o salmista estava em angústia a pergunta que mais lhe feria é quando lhe perguntavam aonde o Deus que ele cria estava. Asafe, salmista, confessa que por essas razões quase seus pés se desviaram (quase se torna cético).
Embora as implicações quanto à realidade da existência divina estejam inseridas no campo da teologia, filosofia e outras tantas, todas essas conjecturas têm como base a necessidade do homem. Qual o interesse de se negar a Deus? Uma forma de rejeitar em quem tanto esperou, ou uma forma de ignorar a quem pode e parece não se importar com o que ocorre no mundo? O conceito ideológico de que Deus criou o mundo e não se importa com o que acontece nele tem encontrado bastante acolhida nos dias atuais. Não é por acaso que filosofias de vida tem ganhado adeptos a cada dia (budismo, hinduismo, etc). Não é raro encontrar cristãos professando incredulidade no interesse de Deus por ele, como já dito anteriormente. Isso não apenas revela um estado de frustração pessoal advinda – muitas vezes – de um processo que desencadeia em depressão: revela que a fé entrou em conflito e quando isso acontece o resultado é a construção de um Deus não apenas limitado ao tempo, mas a situações, conveniências, um Deus passivo e, portanto, um Deus com características humanas. Esse processo se choca com a Teologia teândrica que ensina que o homem “evolui” até alcançar a natureza divina. Ora, por outro lado pode-se notar que pelo processo de incredulidade é a divindade que é reduzida a um simples passivo à sua criação.
Esse combate ideológico acorre na vida de todo ser humano. Por mais que não se negue a existência de Deus o homem não deixa de lhe atribuir os infortúnios. Moisés, Jó, Abraão, Elias, etc, em certo momento apontaram Deus como o responsável pelo sofrimento que passavam. Em o Novo Testamento, especificamente no Evangelho que escreveu João, no capítulo 11 há a narrativa da morte e ressurreição de Lázaro. Jesus havia sido informado da  gravidade da doença daquele alguns dias antes dele morrer, no entanto, só  tomou a decisão de ir  a casa dele  após ele ter morrido, e só chegou ao destino quatro dias depois. Tanto Maria quanto Marta (irmãs de Lázaro) disseram a Jesus que se o mesmo estivesse ali enquanto Lázaro estava doente ele não teria falecido. Apesar das mesmas terem uma admiração por Jesus e uma certa postura de adoração pelo Mestre não esconderam – mesmo que num tom de suspiro e consolo – uma certa frustração pela demora de Jesus em chegar ali. A expressão “se tu estivesses aqui meu irmão não teria morrido”, revela muita coisa. Revela tanto a fé circunstancial quanto a capacidade de limitar a atuação divina a um problema; revela que o homem guia a fé por possibilidades e que Deus parece estar atrelado a operar segundo a capacidade de operação do adorador; revela que a ausência de Cristo foi notada não apenas como um amigo da família ausente, mas como aquele que poderia fazer algo e não estava lá para fazer, mesmo sendo Lázaro o amigo a quem ele amava; revela que o homem tem uma forma sutil de censurar a Deus pela forma dele lidar com suas solicitudes; revela que a esperança do homem em Deus está quando se sente Ele perto e não distante, como deixa transparecer as duas irmãs.                  
São esses dilemas que denotam que o que se aprende sobre Deus se revela quando é posto à prova de fogo. Por isso a incredulidade apaga Deus do cenário e sua inexistência se torna “real” ao néscio ou ao crédulo. A realidade de não se crer em Deus é patente ao que diz que acredita nEle. Pode-se dizer que se acredita em Deus por catequese (discipulado), por tradição e por “revelação”. Por catequese o homem é levado a crer em um “Deus” que é configurado segundo a Teologia do grupo; pela tradição o homem segue ao “Deus” de seus pais, de sua tribo, segue uma religião, um “Deus” que faz isso e aquilo, mas é incapaz de não fazer aquela outra coisa, que não é capaz de perdoar e se perdoa são os perdões que o grupo perdoaria, assim esse Deus não pode ser justiça, etc; por “revelação” o homem não aprende sobre Deus por meio de uma religião, nem tampouco o segue por tradição: é “Deus” quem se “revela” a ele. É de se admitir que esse ponto de vista seja perigoso. Primeiro porque há muitos vivendo um fanatismo desenfreado apregoando que “Deus” lhe apareceu e, assim, se enredam por acharem que não necessitam nem estar junto a uma Igreja (denominação). Em segundo lugar porque essa manifestação não tem por base um misticismo cujo conhecimento não traz nem sequer resquícios de catequese ou de tradição, e assim, o “Deus” que lhe “aparece” age de forma irresponsável, injusto, para os outros homens. São pessoas com tais conceitos formados que tem mais facilidade de se tornarem céticos com relação a Deus. Por que? Porque Deus não age segundo o querer do homem. E quando a expectativa não é satisfeita Deus se torna insuficiente. Mas a experiência com Deus não necessita de visão ou revelação. Experiência é produto da participação dos sofrimentos de Cristo; a comprovação da experiência com Deus nem sempre é vista pelo outro, ao contrário, por vezes quem chega a conhecer a Deus passa por vitupérios, não se escandaliza, não teme, nem tampouco tem sua vida por preciosa. Não está edificado em promessas de riquezas ou coisas semelhantes, mas tão somente se contenta em viver para Deus; contenta-se em sentir sua presença e adversidades não lhe são motivos para negar Deus em sua vida, de atribuir-lhe as causas de sofrimentos ou mesmo dizer que Deus não se importa com ele. Não que haja desqualificação no discipulado ou mesmo na tradição e por mais que sirvam de aio para um conhecimento primário de Deus, não são suficientes para arraigar quem quer que seja a uma fé inabalável no Deus que professa.
A depressão, frustração e outras derrocadas da vida levam o homem a canalizar essas agonias internas a algo ou a alguém; necessitado de ajuda e por se sentir limitado toma por alternativa atribuir a quem esteja mais próximo a si, a quem ama ou a quem adora (Deus) o stress da adversidade (comumente chamado de “descarregar em alguém”). Quando se atribui à Deus as causas, o sintoma é frustração; frustrado com Deus o homem deixa de amar primeiramente a si mesmo; desiludido com a vida tudo perde o sentido de ser (valor); se considera a pior pessoa da vida; acha que ninguém o ama e que Deus é apenas um espectador passivo que não lhe quer ajudar e, que por fim, desaparece de cena.                      
       
Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

- Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).
Email: pr_robert@itelefonica.com.br 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Como Manter a Fé Diante das Adversidades

Roberto Albuquerque dos Santos

A vida cristã é aperfeiçoada pelas inúmeras situações adversas à sua fé. Viver uma vida cristã sem considerar adversidades no cotidiano é como querer a existência dos oceanos sem águas. O enunciado não faz parte de uma teoria, o mesmo pode ser constatado na vida de cada pessoa. A narrativa bíblica do escritor neo-testamentário registra o dito de Jesus quando profere a seus díscipulos a frase “... No mundo tereis aflições. Mas tende bom ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16.33). Ora, foi o próprio Cristo quem advetiu a seus seguidores que os mesmo enfrentariam dificuldades. Essas dificuldades não se limitam apenas ao trabalho cristão, fosse assim  o conteúdo do discurso se ocuparia ao tema, mas em contrapartida ele se  preenche por palavras direcionadas a cumplicidade de qualquer pessoa em seguir a Jesus, ou seja, qualquer indivíduo que se proclamasse cristão passaria por dificuldades na vida. Mas as adversidades não estão reservadas apenas aos cristãos. Todos os homem as têm. Essa tendência de que para ser cristão verdadeiro era necessário passar por sofrimentos, foi muito forte nas regiões da Europa e Ásia,  onde os sermões apocalípticos eram usados (principalmente nos tempos da perseguição religiosa por parte do Império Romano – até 313 d.C. – e da Igreja Romana na época da Reforma protestante – depois do século XVI). Nesse tipo de pregação, ser cristão era ser sofredor.
Nas últimas décadas do século XX se fortaleceu uma tendência teológica que ensina que ao cristão “ é só vitória”.  Segundo esse tipo de pregação o cristão vence sempre. Essa teologia da confissão positiva não tolera o cristão passar por adversidades. Em confronto com as formas de ensinos existentes em séculos passados, esse ensinamento produz muito mais frustração aos crentes. Essa frustração é resultado da anomalia do ensino. Essa pregação concebe uma patologia emocional desencadeando no âmbito espiritual que leva ao abandono da fé e a uma desconfiança total em Deus ou a um estado de depressão crônica quanto a fé. Ou seja, se na época da perseguição muitos se frustravam por não serem perseguidos e, se fossem e não a suportassem, se achavam cristãos inferiores (por não “darem prova de sua fidelidade”), atualmente muitos cristãos inseridos à pregação néo-pentecostal se frustam por não conseguirem o que querem e acham que é “ por falta de fé” que estão em plena adversidade, dificuldades, etc.
Embora as temporalidades, regiões, e até mesmo teologias sejam diferentes, a narrativa bíblica continua intacta. O Cristão está inserido no mundo e nele permanecerá enfrentando os mesmo desafios do dia-a-dia sem privilégios. Mesmo que pareça estranha essa afirmação é o que encontramos na Bíblia. Em sua oração sacerdotal, Jesus não pediu ao Pai que tirasse seus discípulos do mundo, mas que os livrasse do mal (Jo 16.15); por sua vez, Pedro aconselha que a ardente prova não seja estranha aos cristãos (1Pe 4.12). Ao analisarmos a vida de profetas e dos seguidores de Cristo em todas as épocas concluimos que os mesmo não tiveram privilégios, mas tinham esperança (ver Hebreus capítulo 11).
Portanto, a importância se insere em não deixar a fé diante das adversidades, pois as mesmas são participantes da vida de todo ser humano, quer seja cristão ou não. Assim, uma breve análise em alguns pontos referente a fé a a adversidade elucidam a questão.  
1 – A fé é o instrumento pelo qual Deus fortalece o seu servo (Hebreus 11.6). Quando o homem mantém a fé em Deus, ele tem mais segurança para não desistir da caminhada. Moisés foi chamado e mesmo em meio às adversidades no deserto não desistiu de cumprir sua chamada. Pedro pediu para andar sobre as águas e lhe foi concedido, mas quando sentiu o movimento das águas em seus pés e ouviu o barulho enfurecido do vento foi tomado de grande pavor e começou a afundar. Foi advertido por Jesus porque temeu, porém àquela experiência fortaleceu-lhe a fé. Não há nas Escrituras (ou em outra narrativa) relato de que outro homem tenha andado sobre as águas (exceto o próprio Cristo). Ele viu Jesus no mar e ir até ele dependia da ousadia de Pedro e ele ousou; pediu para ir até o Mestre; Jesus concedeu: “vem”! E ele, descendo do barco, foi. Foi porque sentiu sua fé fortalecida naquele momento. Embora a adversidade (o mar) parecesse estar entre Pedro e Jesus na verdade ambos estavam nas mesmas águas, na mesma situação; a diferença é que Pedro estava aprendendo que mesmo junto à Cristo, olhando para Ele, o homem passa por dificuldades não ficando isento dela. Mesmo que Jesus tenha dito para ele “vem” ele (Pedro) precisava confiar, não temer ( ver Mateus 14.22 – 33). Quando se aprende tais coisas em situações semelhantes a fé se fortalece na Graça concedida pelo Mestre e, assim, andar sobre as águas ou mesmo enfrentar dificuldades no deserto (lugares totalmente opostos) são oportunidades que o Senhor nos concede para fortalecer a nossa fé.             
2 – Todo homem é provado concernente à sua fé – A fé não é um sentimento, mas é uma convicção provinda da racionalidade; nós optamos em crer. O ato de crer não depende de Deus, depende do homem. A revelação da Graça sim depende do Espírito Santo (convencendo o homem do pecado, da justiça e do juízo). Ora, crer quando tudo está bem é fácil; crer quando a adversidade está às portas é exercitar a fé depositando a confiança em Deus. Jó foi provado e em meio a provação não negou sua fé em Deus. Mesmo “perdendo” a família e lhe sendo roubado e destruído seus bens materiais, manteve firme sua convicção em Deus. Ele era um homem temente, poderia achar estranho estar passando por tantas lutas, mesmo assim continuou fiel ao Senhor. Ele tomou uma decisão em sua vida e essa decisão tinha como base as convicções de sua crença no Altíssimo. Jó foi provado quanto sua lealdade a seus amigos, sua família, seus negócios etc, mas não tanto quanto o foi em sua fé. A sua lealdade a Deus era maior que sua lealdade a qualquer ser humano. O objetivo do Adversário era produzir no coração de Jó um sentimento de repudio a tudo que ele viveu, adorou, sacrificou, orou, agradeceu ao Deus que temia. Mas Jó não blasfemou do Senhor seu Deus, antes a Ele se manteve fiel. A Abraão o Senhor pediu-lhe o filho em sacrifício. Ele podia negá-lo, mas não o fez. Foi ao monte Moriá e “sacrificou” a Isaque no cordeiro que Deus a si mesmo proveu.        
3 - A adversidade traz maturação à fé. O Salmista Davi disse que para ele bom foi ter sido afligido para que conhecesse melhor o caminho do Senhor. José antes de sentar no trono do governo do Egito, teve que passar por uma cisterna; por um lugar de acusações na casa de Potifar; nas masmorras da prisão egípcia até chegar no lugar de exaltação. As várias etapas da caminhada (vida) de José solidificaram sua fé no Deus que preserva seu servo na adversidade, nem sempre o livrando de passar por ela. Daniel passou uma noite com leões famintos; três hebreus foram lançados na fornalha babilônica, mas em todas esses e outros acontecimentos Deus deu vitória ao seu povo, mas em meio ao processo em que estavam passando.       
Portanto, por mais intimo que seja o homem com Deus, isso não o isenta de lutas e provações. Deus não nos chamou para estarmos imunes ao que acontece no mundo, ou seja, estamos sujeitos as mesmas coisas que acontece as pessoas que não seguem a Jesus. No entanto, a alegria do Senhor é a nossa força, Ele é nosso Pastor e com certeza nos ajudará em todos os nossos momentos edificando a nossa fé em si mesmo.  

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF – Embú  );

Escritor de apostilas utilizadas na grade do IETEB, conforme abaixo:

-      Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
-      Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
-          Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
-          Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).

 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Indio Brasileiro Sob a Perspectiva de Caio Prado e John Monteiro

Roberto Albuquerque dos Santos

A historiografia do Brasil, quando se direciona a etnia, denota relatos que, quando não muitos, são obscuros ao fazerem citações sobre o contingente considerável de índios habitando a terra pertencente ao reino de Portugal.
            É comum nas publicações de história, principalmente os de cunho didático, a figura indígena ter pouca relevância na construção da sociedade que se erguia sobre terras que até então se denominavam coloniais. Sendo assim, essa população numerosa que, mesmo distribuída sob o regime tribal e espalhada nas diversas regiões da colônia, foi vista até pouco tempo, como uma figura totalmente alheia ao que se fazia em seu território, como se os mesmos não protegessem o que lhes era por direito natural. Sob este ponto de vista, a imagem do índio que habitava o solo brasileiro no período colonial é a figura de uma pessoa totalmente passiva e que, por não servir para a escravidão, foi “libertado” e trocado seu trabalho pela mão de obra de escravos provindos da África.
            No entanto, historiadores do século passado, abordaram fatores preponderantes que desfazem essa pintura teatral do índio como mero espectador do que acontece ao seu redor, e os põem em uma posição de impacto com as, até então, opiniões referentes aos mesmos.
            Desde o seu contato com o europeu, foi relegado a um tratamento que por diversas vezes foi mudado, dependendo da ocasião ou do grupo com os quais se relacionavam.

1 - Relação com os colonizadores
O litoral brasileiro começou a ter de forma intensificada a sua colonização pelos portugueses em meados do século XVI. Com essa investida dos colonizadores lusitanos, a mão de obra era necessária, porém escassa. Frustrada a tentativa de se adquirir índios de tribos que possuíam prisioneiros de guerras (por lutas com suas rivais) para transformá-los em escravos, os colonizadores organizaram expedições e, de forma abusiva, faziam prisioneiros e conseqüentemente escravos, membro das tribos que reagiam a suas investidas.
            O interesse dos colonizadores pelo índio nativo era de certo modo diversificado. Os colonos viam no índio um trabalhador pronto a ser aproveitado. Sendo assim, fora à classe indígena tratada como alavanca de força trabalhista para emergir a economia colonial. Os mesmos eram usados nas lavouras e nelas roçavam, semeavam sementes, guardavam as plantações e faziam a colheita. Além de ser usado como agricultor, o índio também foi de grande utilidade para os colonos no segmento de transporte de carga, de São Paulo a Santos, via Serra do Mar. Por sua facilidade de locomoção via mata, trilhando por caminhos inóspitos e íngremes, os mesmos eram forçados a transportarem a pé, cargas que beirava os trinta quilos. John Monteiro, em seu texto “O escravo índio, esse desconhecido”, cita o relato do Padre Antonio Vieira, onde o mesmo declara que o índio “nas cáfilas de São Paulo a Santos não só iam carregados como homens, mas sobrecarregados como azêmolas, quase todos nus ou cingidos com um trapo e com uma espiga de milho pela ração de cada dia”.[1]
            Outra forma imposta ao índio era sua utilidade como aliado sertanista do colonizador. A necessidade de se adentrar as áreas desconhecidas pelos europeus para exploração, apropriação ou até mesmo aprisionamento de índios para a escravidão, tornaram a figura do indígena um forte aliado nesse empreendimento. Embora pelas leis de Portugal, o aprisionamento e a escravidão de índios fossem proibidos, os colonos, em contrapartida, favoreciam-se do uso e costume da terra, que estabelecia o serviço obrigatório dos mesmos. Se o Reino libertava, os colonos, sob a lei da terra, tiravam essa liberdade.
            Em meados do século XVII, os colonos do Maranhão, valendo-se tanto do trabalho dos sertanistas como da conivência de autoridades que se corrompiam com favores dos comerciantes interessados na mão de obra escrava indígena, arrebatavam índios de seus inimigos e, tanto os traficavam para o comércio de escravos, como também usavam em suas fazendas. Assim, esse processo chegou a extinguir no período de quarenta anos uma média de dois milhões de índios, isso, em parte, por causa dos maus tratos que os mesmos sofriam pelos seus “senhores”. Tal tratamento dos colonos maranhenses aos vassalos indígenas dava-se pelo fato da sensação de abundância de mão de obra na Amazônia.
Nessas circunstâncias, os índios eram tratados como meros trabalhadores (escravos) dispensáveis quando não mais necessários. Dispensados não por falta de trabalho, mas por inutilidade gerada pelo desgaste de suas atribuições. Essa dispensa certamente se dava com a morte do mesmo. A imposição dos colonos aos índios foi de extenuante exploração, tanto física, como moral, psicológica e social.

2. Sob o Ponto de Vista da Metrópole
Enquanto os colonizadores exploravam a população indígena nativa com trabalho escravo, as pretensões da Metrópole eram diferentes. Em toda história colonial brasileira pode-se notar a intenção de Portugal em fazer do índio um elemento da colonização. Sendo a colônia de extensão por demais avassaladora para a Metrópole, buscava assim o Reino aproveitar toda população disponível para a ocupação do espaço geográfico; embora os índios já estivessem estabelecidos aqui, por ser seu habitat natural, Portugal procurou assim, incorporar os índios na sociedade que aflorava.
            Ao assunto, Caio Prado Junior, declara que Portugal concernente aos índios pretendia “arrancá-lo das selvas para fazer dele um participante integrado na vida colonial; um colono como os demais”.[2]
            Embora Portugal buscasse de uma forma interagir o índio a comunidade, se chocava com os interesses dos colonos que os exploravam na escravidão. Além do mais, existiam os próprios jesuítas que, em busca de uma catequese bastante particular, “digladiavam” contra os interesses dos colonos. Portanto, a Metrópole portuguesa se via em meio a essa constante batalha, sem ter também uma posição firme a impor.
            No final do século XVIII, Portugal instituiu a legislação pombalina. A mesma absorve os ideais jesuíticos “da liberdade dos índios, da necessidade de educá-los e os preparar para a vida civilizada, e não fazer deles simplesmente instrumentos de trabalho nas mãos ávidas e brutais de colonos (...)”. [3]
            Embora Portugal tenha tomado tal medida, não isolou os índios da comunhão com os colonos. Assim, além de forçá-los a falarem o dialeto português, permitia aos colonos utilizarem os indígenas como trabalhadores assalariados, para que assim, os mesmos fossem introduzidos na vida civilizada. Essa “nova” convivência com os colonos davam-lhe até mesmo o direito da miscigenação da comunidade através dos casamentos mistos.
            Embora a legislação pombalina tenha inserido o índio no meio da sociedade, isto é, como elemento da população colonial, ele continuou sendo visto como “uma raça bastarda; e como tal, foi alvo do descaso e prepotência da raça dominadora”.[4]
            É preciso deixar claro que mesmo a legislação pombalina dando liberdade aos índios, e providenciando tutores para lhes garantirem direitos junto aos colonos, os mesmos foram explorados por esses diretores de aldeias que tiravam proveito deles para aumentarem suas remunerações. 

3. Sob os Jesuítas
            Sobre este assunto, Caio Prado afirma que o regime como as aglomerações indígenas (“reduções”) sob os jesuítas e suas organizações, “não eram evidentemente os mais indicados para fazer dos índios elementos ativos e integrados na ordem colonial”.[5] Os índios eram isolados do convívio com os colonos de tal maneira que se tornavam dependentes dos seus mestres e disciplinadores; longe dos mesmos, eram incapazes de conviverem na vida social da colônia. Portanto, pode-se entender que o interesse dos jesuítas, concernente aos índios, era totalmente contrário as pretensões portuguesas referente à inclusão dos indígenas no campo social colonial. Educá-los para uma vida civilizada era necessário; a escravidão que lhes era imposta pelos colonos deveria ser extinta. Os jesuítas não viam o índio como um escravo para servir a colônia, nem tampouco para apenas a extensão de terra da colônia; ele era visto como um objeto de sua missão.
            Embora os jesuítas fossem contrários à escravidão indígena, não deixaram de fazer parte de diversas expedições para “descimentos” ou “resgate”, patrocinados tanto pelo Estado como pela iniciativa privada. Isso se deu por causa da lei promulgada em 1655 pelo rei D. João IV, que garantia os cuidados espirituais e também temporais dos aldeamentos aos padres. Essa lei foi fruto das constantes interferências do padre Viera junto ao monarca português que decidiu em favor dos jesuítas.
            No entanto, décadas mais tarde esse poder temporal jesuítico foi suspenso; “Não era possível conservar aquele poder sem comprometer todos os fins que se tinham em vista”[6]; afirma Caio Prado.

BIBLIOGRAFIA

JÚNIOR, Caio Prado – Formação do Brasil Contemporâneo; Ed. Brasiliense; 23a. ed. 1994. 7a. Reimpressão; São Paulo.
MONTEIRO, John – O escravo índio, esse desconhecido; In: Donizete Luiz Grupioni, Benzi (org). Índios do Brasil; 3a. edição; São Paulo; Global; Brasília; MEC, 2000.

Sobre o Autor
Bacharel em Teologia formado na FAESP;
Bacharelado e Licenciado em História pela FIEO;
Palestrante, Conferencista em diversos eventos;
Professor de Teologia (IETEB - Osasco/ ITF - Embu);
-  Curso Básico:  Introdução Bíblica; Antigo Testamento; Novo Testamento;
- Curso Médio: Cristologia; Livros Poeticos; Período Interbíblico
- Bacharel: Cristologia; Livros Poéticos;
- Outros: Bibliologia Geral; Arqueologia Bíblica;
Escritor de diversas Apostilas usadas em Palestras, Estudos e Seminários. Entre outros títulos, citamos: Escatologia; O Adolescente; Laços do Passarinheiro (voltado aos jovens); Liderança/Líder/Relacionamento com o Grupo; Não Sejais Meros Ouvintes (Estudo no Livro de Tiago).



[1] A citação de Monteiro faz referência a obra “Voto do Padre Antonio Vieira sobre as dúvidas dos moradores da Cidade (sic) de São Paulo”. 12 de junho de 1962, Instituto de Estudos Brasileiros, Coleção Lamego 42.3. Ver  “Índios do Brasil”; Donizete, Lucas. 3a ed; Global Editora e Distribuidora; p. 109.
[2] JÚNIOR, C. P. Formação do Brasil Contemporâneo, São Paulo: brasiliense, 23a. ed. 1994. 7a. Reimpressão 2004. p.92
[3] Idem, p.93.
[4] Idem, p. 95.
[5] Idem, p. 92.
[6] Idem, p. 94.